O Melhor Terror de 2016





















Hush (Mike Flanagan, 2016)




16

Rob Zombie, 31
Fede Alvarez, Don't Breathe
Kiyoshi Kurosawa, Kurîpî: Itsuwari no rinjin (Creepy)
Ti West, In a Valley of Violence
Na Hong-jin, Goksung (The Wailing)
Yeon Sang-Ho, Busanhaeng (Train to Busan)
James Wan, The Conjuring 2
Jeremy Saulnier, Green Room
Bryan Bertino, The Monster
Nicolas Pesce, The Eyes of My Mother
Mike Flanagan, Hush
Bo Mikkelsen, What We Become
Can Evrenol, Baskin
Karyn Kusama, The Invitation
Jon Watts, Clown
Babak Anvari, Under the Shadow


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Targets (1968) de Peter Bogdanovich





















Targets (Peter Bogdanovich, 1968) 




No seu segundo filme, Targets (1968), Peter Bogdanovich veste a pele de Sammy Michaels, promissor cineasta que tenta convencer Byron Orlock (Boris Karloff) a reconsiderar a decisão de se aposentar da carreira de actor que o projectou como figura mítica do cinema de terror. Como veremos ao longo do filme, a tarefa não é cumprida pois Byron Orlock confirma o que o levara a tomar a decisão: o pressentimento de que diariamente o espectador é confrontado com uma realidade demasiado violenta para ainda se arrepiar com as personagens arcaicas que representa. Em paralelo corre a narrativa de um jovem sniper, Bobby Thompson (Tim O’Kelly), que, depois de assassinar parte da família, se instala em locais estratégicos para abater aleatoriamente os que passam pela mira da sua arma. Uma história inspirada no caso real de Charles Whitman. O confronto entre os dois blocos narrativos dá-se apenas no final (ainda que no inicio haja um encontro inconsequente), num drive-in onde decorre uma sessão de homenagem a Byron Orlock, que assim porá um ponto final nas suas presenças em eventos públicos. A tela do drive-in exibe The Terror (O Terror, 1963) de Roger Corman, protagonizado pelo próprio Boris Karloff/Byron Orlock, e atrás dela o sniper encontra um último esconderijo, utilizando um pequeno orifício para prosseguir o massacre. Com este dispositivo, Bogdanovich cria a ilusão de que as imagens do filme disparam literalmente sobre o espectador. [continuar a ler]


Texto publicado em 13.10.2016 no site À pala de Walsh.




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Como se não existisse nada (2016) de Sibila Lind





















Como se não existisse nada (Sibila Lind, 2016) 




A obra de Querubim Lapa (1925-2016), considerado o mais importante ceramista português do séc. XX, tem uma presença no cinema nacional, como marca de modernidade e de cosmopolitismo, nomeadamente nos períodos anteriores e contemporâneos do Cinema Novo. Criou um conjunto de réplicas da obra do escultor Soares dos Reis para o documentário O Desterrado (1949) de  Manuel Guimarães, montando oficina de trabalho na Tobis Portuguesa, onde contactou com personalidades ligadas ao cinema, como Cottinelli Telmo, tendo acompanhado as filmagens de Vendaval Maravilhoso (1949), última ficção de José Leitão de Barros. Uma das suas criações mais singulares, o pórtico da desaparecida loja Rampa, foi registada por Paulo Rocha em Verdes Anos (1963). Como nota Rita Gomes Ferrão, em Querubim Lapa: Primeira Obra Cerâmica 1954-1974, a última monografia que lhe foi dedicada ainda em vida [continuar a ler]


Texto publicado em 28.10.2016 no site À pala de Walsh.




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LEFFest 2016: suicídio assistido, famílias sepulcrais, estátuas a arder e gordas a dançar

























Rester Vertical (Alain Guiraudie, 2016) 




Em jeito de compensação pelo acidente de 2013, em que L’Inconnu du lac (O Desconhecido do Lago, 2013) foi remetido para a secção “Un Certain Regard”, Cannes 2016 elevou Rester vertical (2016) à competição oficial. Se a escolha prestigiou ou não a competição é uma questão irrelevante e independente da qualidade do filme pois, na história do festival, abundam exemplos de cinema anódino seleccionado para esta secção. Chega agora a Portugal, já com o logótipo da Alambique, devidamente legendado e pronto a estrear-se. A avaliar pela quantidade de público, sorrisos envergonhados e exclamações de espanto, na sessão de sexta-feira à noite do Cinema Nimas, o universo singular de Alain Guiraudie ainda não conquistou em Portugal uma base sustentável de fãs [continuar a ler]


Texto publicado em 15.11.2016 no site À pala de Walsh.




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LEFFest 2016: “The Last Family” de Jan P. Matuszynski





















The Last Family (Ostatnia rodzina, Jan P. Matuszynski, 2016)




Ostatnia rodzina (The Last Family, 2016) de Jan P. Matuszynski abre com Zdzislaw Beksinski (Andrzej Seweryn), pintor polaco, popular pelos seus retratos de grandes dimensões de figuras despojadas em cenários apocalípticos, a confessar o desejo de possuir um programa digital que produzisse uma mutação física e intelectual em Alicia Silverstone, oferecendo-lhe alguns centímetros de altura e outros apetecíveis benefícios físicos, juntamente com um conjunto de ferramentas intelectuais. A junção dos ideais físico e intelectual instiga Beksinski a descrever pormenorizadamente um rol de excessos sexuais a que submeteria a actriz, o que nos leva a conceber um corpo humano dilacerado pela violência dos prazeres a que é sujeito. Atente-se à passagem de Beksinski pelo corredor, quando acompanha o interlocutor à porta. Ao fundo, entre a penumbra, ressaltam fragmentos de uma pintura da sua autoria, em que uma figura deformada parece escorrer sangue. No regresso à sala, Beksinski  senta-se e contempla pinturas suas expostas nas paredes. Pelas pistas oferecidas antevemos The Last Family  como uma deriva por traços biográficos susceptíveis de inspirarem a obra do pintor, refugiando-se numa hipotética incapacidade de emancipar a obra da vida. Não poderíamos estar mais enganados.

Estreado na secção competitiva do Festival de Locarno, onde Andrzej Seweryn merecidamente conquistou o prémio para a melhor interpretação masculina, The Last Family é a primeira incursão de Jan P. Matuszynski na longa-metragem de ficção, após realizar o documentário Deep Love (2013) e várias curtas-metragens. A opção tomada no prólogo, ao centrar a cena em torno da obra de Zdzislaw Beksinski, é rapidamente posta de lado. Muito esporadicamente acompanhamos a sua pratica artística. As pinturas estão lá, em abundante quantidade e espalhadas pela casa, mas unicamente como papel de parede. [continuar a ler]


Texto publicado em 15.11.2016 no site À pala de Walsh.



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Vídeo-ensaio: Haunting Symptoms, do subtexto ao texto




Projecto inserido na Segunda Temporada dos Filmes Fetiche do site À pala de Walsh



Em 1963, numa produção da Metro-Goldwyn-Mayer, o norte-americano Robert Wise realizou The Haunting (A Casa Maldita) no Reino Unido, filme de terror sobrenatural em que um investigador convida um grupo de pessoas para estudar fenómenos paranormais numa casa senhorial com um longo historial de acidentes mortais, cuja explicação escapa à ciência. Eleanor, uma das convidadas interpretada por Julie Harris, é colocada no centro de uma espiral febril que lentamente vai suprimindo a linha ténue que separa o fenómeno paranormal do transtorno psicológico.

Na mansão, Eleanor atravessa corredores e quartos encontrando por detrás de uma porta, Theodora (Claire Bloom), personagem sexualmente desinibida, em aberto contraste com a sua inexperiência. A sofisticação da personagem de Claire Bloom é marcada desde logo no genérico, em que é o único elemento do elenco a ver referida a griffe do seu guarda-roupa, desenhado pela ousada Mary Quant. Robert Wise conta  que teve de cortar uma cena do início do filme para não tornar explícita a orientação sexual de Theodora, o “erro da natureza” de que a acusa Eleanor.

Onze anos depois, em 1974, José Ramón Larraz, conhecido pelas suas incursões por territórios da exploitation, realiza Symptoms (...)


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Walerian Borowczyk: Make me Scream Again






















Docteur Jekyll et les femmes (Walerian Borowczyk, 1981)




Em parceria com o colectivo White Noise, o MOTELX - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa apresenta uma homenagem a Walerian Borowczyk (1923-2006), cineasta de culto, cuja obra tem vindo a ser reavaliada internacionalmente, acompanhando o restauro dos seus filmes, mas que em Portugal ainda não recebeu a atenção merecida.

Nascido na Polónia, Walerian Borowczyk  construiu uma obra que coloca em confronto noções de inocência e de experiência, de autoridade e de sexualidade, num tom herdado do surrealismo e do cinema primitivo, cruzando um conjunto de disciplinas que engloba o cinema, a escrita, o design, a pintura e a escultura. A sua carreira iniciou-se pelo desenho de posters e na realização de curtas-metragens de animação. Em 1958, radicou-se em Paris, onde sedimentou um percurso auspicioso na animação, apadrinhado por Chris Marker. Passou para a longa-metragem em modo live action no meio das transgressões eróticas das décadas de 1960 e 1970, chegando a capa da prestigiada revista Cahiers du Cinema. Quando enveredou por ambientes carregados de erotismo quase que arruinou a reputação.

O programa Walerian Borowczyk: Make me Scream Again repesca dois dos seus filmes mais relevantes,  La bête (1974) e Docteur Jekyll et les femmes (1981), apresentados em cópias restauradas, e contextualiza o seu trabalho na masterclass One Man Band: Walerian Borowczyk, conduzida por Daniel Bird, um dos maiores especialistas e responsáveis pela reavaliação da sua obra, que também estará presente na projeção dos filmes, para uma breve introdução, lançando algumas surpresas que não constam no programa.

Na edição de Abril de 1996 da revista Sight & Sound, Chris Newby afirmava: “Nunca vi um retrato de Walerian Borowczyk pelo que me sinto feliz. Gosto de imaginá-lo como homem de poucas palavras, nos seus setenta anos, meio-monge, meio-coruja, talvez impetuoso, com longos dedos cadavéricos. O curador do seu próprio museu erótico, nas profundezas de uma floresta, algures na França rural. [...] Talvez seja conveniente que os filmes de Borowczyk sejam um prazer obscuro, que seja necessário algum empenho em procurá-los, como se fossem livros antiquados numa livraria poeirenta."


Programa:

La bête (1975)
08.09, 19h15, Cinema S. Jorge, Sala 3

Docteur Jekyll et les femmes (1981)
10.09, 14h40, Cinema S. Jorge, Sala 3

One Man Band: Walerian Borowczyk, masterclass por Daniel Bird
10.09, 17h30, Cinema S. Jorge, Sala 2


Agradecimentos White Noise: MOTELX, Daniel Bird, Friends of Walerian Borowczyk, Paulo Soares, Rita Gomes Ferrão, À pala de Walsh


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Una lucertola con la pelle di donna





















Una lucertola con la pelle di donna (Lucio Fulci, 1971)




Numa avaliação superficial do cinema de género italiano, Lucio Fulci aparece injustamente  numa categoria abaixo de mestres como Mario Bava ou Dario Argento. Respondendo superficialmente aos que apontam o gore como a única arma de Lucio Fulci, tão desmedido que engole tudo à sua volta incluindo a capacidade de análise do espectador desprevenido, poder-se-ia apontar que, também no caso de Dario Argento, a preponderância da composição dramaticamente operática é responsável pelo mesmo efeito obliterador.

Quando falamos da produção italiana de cinema, falamos realmente de indústria, uma vez que, entre as décadas de 1950 e 1970, chegaram a produzir-se mais de duas centenas de filmes por ano, repartidos pelos mais variados géneros, entre o western, a ficção científica, o thriller, o policial, o peplum, o drama ou a comédia. Esta actividade florescente, determinou que Roma fosse chamada Hollywood do Tibre e que os estúdios americanos para aí deslocassem vedetas e a produção de filmes de grande orçamento, nomeadamente os de carácter histórico. No que toca ao cinema feito por italianos, à exceção dos realizadores respeitados pelas academias (de Sica, Rosselini, Fellini, Visconti, Pasolini, Antonioni), havia uma apetência por um cinema popular que encontrava antecedentes, em meados do século XX, na obra de Riccardo Freda. Detestando a comédia e o realismo, Freda seguira um caminho alternativo ao neorrealismo, desviando o olhar da reconstrução do pós-guerra e trocando as filmagens na rua e os actores amadores pelo controlo do estúdio e a elegância das vedetas, criando épicos sumptuosos que, apesar do financiamento limitado, se tornavam grandes sucessos de bilheteira, não ficando atrás dos seus parentes ricos de Hollywood. Nas décadas seguintes, enquanto a obra de Freda definhava, demasiado presa aos formalismos clássicos ou desajustada dos ímpetos da vida moderna, tornava-se necessária à voracidade comercial da indústria, uma revigorada ousadia no tratamento da violência e do erotismo.

É neste ponto de viragem do cinema de género italiano que se dá igualmente uma mudança radical na obra de Lucio Fulci, anteriormente notado como argumentista e autor de comédias e musicais. Em 1969, Fulci realiza dois filmes bastante diferentes: Beatrice Cenci, um drama histórico e Una sull'altra, um thriller all’italiana, formato que ficaria conhecido como giallo. Ao longo da carreira, Fulci realizaria mais cinco giallos: Una lucertola con la pelle di donna (1971), Non si sevizia un paperino (1972), Sette note in nero (1977), Lo squartatore di New York (1982) e Murderock - Uccide a passo di danza (1987). Ainda em 1969, o realizador seria tragicamente abalado pelo suicídio da esposa que, através de intoxicação com gás, põe fim ao sofrimento causado por uma doença cancerígena. Filmado nos Estados Unidos, em cenários reais, incluindo uma câmara de gás, o negrume de Una sull'altra parece refletir essa perda irreparável. Marisa Mell, a vedeta do fabuloso delírio pop Danger: Diabolik (1968) de Mario Bava, é uma das protagonistas, ao lado de Elsa Martinelli e Jean Sorel. Fulci filma o final, em que Sorel devido a um erro judicial é condenado à morte na câmara de gás, sem qualquer sentimentalismo e de modo tão seco que quase se aproxima do registo realista. Na última cena, cabe a um repórter contar o desfecho da história, com a salvação de Sorel, sem qualquer flashback ou imagem do galã, que, havia minutos, deixáramos na cela à espera da execução.

Dois anos depois, Jean Sorel, “perfeito” playboy inexpressivo, volta a representar um marido adúltero em Una lucertola con la pelle di donna. A esposa, Carol Hammond  (Florinda Bolkan) tem recorrentemente sonhos em que se envolve sexualmente com a vizinha libertina, Julia Durer (Anita Strindberg). Sem grande espanto, o psicanalista ao interpretar o sonho conclui que Carol deseja sexualmente a vizinha, a encarnação do pecado e da degradação moral, cuja casa funciona como símbolo do vício. Um dia Carol sonha que mata brutalmente Julia, mais tarde descobrindo que a vizinha foi de facto assassinada. Una lucertola é um giallo um tanto atípico. Primeiro, porque não existe um assassino misterioso, torturado por uma memória, que vai dizimando personagens – aqui, a única incógnita é relativa à morte de Julia Durer que acontece pouco depois do inicio do filme. Mais, Fulci recentra o filme no processo policial, sendo que, nos assassinatos que acontecem posteriormente, não só a vítima reconhece o assassino, como também o espectador, a quem, segundo a fórmula do giallo, deveria ser vedada esta informação até perto do final. A decadência normalmente instalada em famílias aristocratas que vivem segundo modelos tradicionais em ruína – da qual será arquétipo visual a condição de Veneza enquanto cidade a afundar-se nas águas – dá lugar à modernidade da Swinging London e dos novos valores da cultura hippie.

Se no seu próximo giallo, Non si sevizia un paperino, Fulci olha para o interior de Itália e para a corrupção no seio de estratos sociais ancestrais, em Una lucertola sugere desencanto com as novíssimas formas de organização social predominantemente de origem urbana. É também aí que se reproduz o pecado, a degradação moral e o vício. Num dos primeiros planos, Florinda Bolkan aparece deitada numa cama que mais parece uma gaiola, envolta por armações de ferro. Encontramos nela sentimentos contraditórios em relação ao “amor livre”, sublinhado pelos novos desenvolvimentos sociais, que lhe provocam curiosidade, mas também se apresentam como ameaça à sua condição social de mulher branca, heterossexual, oriunda de um estrato social alto. Como fórmula recorrente, o envolvimento de mulheres em relações lésbicas não passou despercebido aos movimentos feministas que acusavam os cineastas de exploração sexual da mulher. Especialmente, por se tratar de filmes realizados por homens e dirigidos a um público maioritariamente masculino. Mas nem sempre era esse o entendimento, uma vez que duas mulheres envolvidas sexualmente poderiam representar para o homem, simultaneamente prazer e ameaça – neste ultimo caso, ao constatar a possibilidade de prazer sexual pleno, dispensando a presença masculina.

O último plano de Una lucertola coloca-nos no mundo dos mortos, debruçando-se sobre as sepulturas num cemitério. Passados poucos anos, seguindo a palavra de ordem de George Romero - when there's no more room in hell, then the dead will walk the earth – caberá a Fulci abrir as portas do inferno e soltar os mortos em Zombi 2 (1979), falsa sequela de Dawn of the Dead (George Romero, 1978), e depois na falsa trilogia Gates of Hell: Paura nella città dei morti viventi (1980), ...E tu vivrai nel terrore! L'aldilà (1981) e Quella villa accanto al cimitero (1981). Foram estes os filmes que deram fama a Fulci, pelo uso de um gore estilizado que submete o corpo a novas formas que remetem tanto para o território do body horror como para o desmembramento na obra pictórica de Francis Bacon – já em Una lucertola pressentíamos Bacon nas pinturas da casa ou nos sonhos de Carol. Com o gore, Lucio Fulci parece sugerir que são os corpos rasgados que autorizam a libertação violenta das vísceras, como se estas estivessem, impacientemente, expectantes à espera de permissão de saída.


Versão revista do texto distribuído no âmbito do evento 3 na Cossoul que decorreu na Sociedade Guilherme Cossoul com produção dos colectivos À pala de Walsh, Germinal Art e White Noise.



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O Artesão Borowczyk
































O Artesão Borowczyk, curtas de animação de Walerian Borowczyk 


On June 21st 1887, on the railway line from Paris to Saint-Germain-en-Laye, at the level crossing located at kilometre 12, a cart was struck and overturned by train number 17. The horse was killed and three people were taken to the Chatou hospital. The Vesinet police arrived at the scene of the accident to help the passengers transfer their baggage onto another train. No one appeared to claim a leather trunk covered with numerous labels bearing the names of the most fashionable international hotels and boarding houses. In the owners’s absence, the police were obliged to write a report on the contents of the suitcase. The document is preserved at the archives of the Transport Mininistry.
A letter found at the bottom of the trunk and addressed to Madame Jeanne-Loiuse-Henriette d’A. led one to believe that the bag belonged to this same person. When questioned, Madame d’A. declared most emphatically that the trunk did not belong to her, that surely the letter, fallen from her left pocket, then blown by the blast of air produced at the moment of collision, had by chance slipped inside the trunk in question.
It is easy to understand why Madame Jeanne-Lois-Henriette did not wish to identify herself as the owner of the accursed trunk: among its contents was an object of feminine auto-eroticism.
It is not known how or when the trunk disappeared from the storage locker of the Vesinet police station; today I am the one in possession of this picturesque luggage with all its precious contents.
The object that caused Mme. D’A so much trouble is a representation of a male member of ample wood root. The larger end of the device features a sepia toned photograph now faded, in which one can discern the features of a handsome, bearded man. A small mirror incorporated into the case of the apparatus is designed to prevent one losing sight of one’s lover for the entire period of the sex act. An instrument of not altogether solitary pleasure, elegant and surprising.
To date – a century after the train accident – none of the heirs of Madame Jeanne-Loise-Henriette d’A. has come forward to claim the inheritance.
Actually, there was one. But he was an impostor, unable to prove his kinship to the man with the beard, whom he claimed was his grandfather.

Walerian Borowczyk, The inheritance, 1992



O programa O Artesão Borowczyk faz parte de uma proposta do colectivo White Noise que visa divulgar cineastas de culto internacional, que no circuito nacional de exibição não obtiveram a visibilidade merecida. No caso de Walerian Borowczyk, trata-se de uma obra que durante muitos anos foi relegada para pequenos nichos de público, passando actualmente por um período de revalorização a nível internacional. Esta proposta tem como ponto de partida um conjunto de trabalhos de curta duração, em animação ou no caso de live action com fortes influências do trabalho desenvolvido em animação.

Walerian Borowczyk foi um pintor, escultor e cineasta polaco. Radicado em Paris, onde sedimentou uma carreira auspiciosa na animação, apadrinhado por Chris Marker, passou para a longa-metragem live action, no contexto das transgressões eróticas dos anos de 1960 e 1970, chegando a capa da revista “Cahiers du Cinema”, mais tarde enveredando por ambientes porno-chique que quase destruíram a sua reputação. O pontapé de saída para a operação internacional de reabilitação foi a bem sucedida campanha de crowdfunding lançada pela Arrow Video - dinâmica companhia inglesa responsável por óptimas edições em DVD e Blu-ray de clássicos de Mario Bava, Lucio Fulci, Dario Argento, Brian De Palma e Tobe Hoper, entre muitos outros - para restaurar Goto, l'île d'amour (1969), uma das suas primeiras longas-metragens e a que originou a capa da revista francesa. Numa caixa de colecionador, Camera Obscura: The Walerian Borowczyk Collection (2014), a Arrow juntou a esta obra algumas das suas animações mais notáveis, as longas Théâtre de Monsieur & Madame Kabal (1967), Blanche (1972), Contes immoraux (1974) e La bête (1975), um livro editado por Daniel Bird e Michael Brooke com novos ensaios, artigos históricos de Raymond Durgnat, Philip Strick, Patrice Leconte, David Thompson e Chris Newby, e um grupo de contos do artista originalmente incluídos na publicação L'anatomie du diable (P. Belfond, 1992), entre muitos outros extras preciosos. Apesar de se tratar de uma edição limitada e numerada, seguiu-se a edição autónoma de algumas dessas longas-metragens. Em paralelo, entre Maio e Junho de 2014, o Institute of Contemporary Arts (Londres) apresentou a exposição Walerian Borowczyk: The Listening Eye, reunindo trabalhos seus pouco conhecidos como os estudos preliminares de animações e esculturas sonoras em madeira, que remetem imediatamente para os cenários artesanais dos seus primeiros filmes, também por ele desenhados. A operação da Arrow arrastou-se para 2015, lançando em conjunto com a sua nova congénere americana, um dos seus melhores filmes, Docteur Jekyll et les femmes, realizado já na década de 80, ainda antes de se dedicar a um novo título da série erótica Emmanuelle e acentuar o período de desgraça. A cópia restaurada de Docteur Jekyll et les femmes teve estreia no prestigiado Festival Internacional de Cinema de Roterdão, na secção Critic’s Choice, selecionado por Adrian Martin e Cristina Álvarez López, autores do vídeo-ensaio sobre o filme que fora incluído na edição da Arrow.



Versão revista do texto distribuído no âmbito do evento 3 na Cossoul que decorreu na Sociedade Guilherme Cossoul com produção dos colectivos À pala de Walsh, Germinal Art e White Noise.



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3 na Cossoul





















Una lucertola con la pelle di donna” (Lucio Fulci, 1971) 




A S.i.Guilherme Cossoul recebe no próximo dia 18 de Fevereiro (quinta-feira) três projectos irmãos: À pala de Walsh, Germinal Art e White Noise.

O dia começa às 19h00, na Galeria Germinal, com um cocktail de boas-vindas. Ao mesmo tempo, na biblioteca (sala ao lado), o colectivo White Noise apresenta "O Artesão Borowczyk", conjunto de curtas-metragens de animação da autoria do idiossincrático cineasta polaco.

Às 20h45, na sala Raul Solnado acontece, com programação de White Noise, a projecção do clássico do giallo “Una lucertola con la pelle di donna” (Serpente com Pele de Mulher, 1971) de Lucio Fulci. A exibição e as folhas de sala são da responsabilidade dos white noisers Carlos Alberto Carrilho, Miguel Patrício e Sabrina D. Marques. Após a projecção, os walshianos Carlos Natálio, João Lameira e Luís Mendonça reúnem-se com o cinéfilo Vasco T. Menezes para uma conversa sobre essa obra de Fulci.

Às 23h15, a Raul Solnado dá lugar ao convívio musicado a preceito pelo disc-jockey João Lameira.

As entradas são todas, sem excepção, "à pala".

Assim se comemora a ocupação triádica do magnífico espaço da Guilherme Cossoul. Apareça!


Programa:

19h00
Recepção com cocktail, Galeria Germinal
O Artesão Borowczyk, curtas de animação de Walerian Borowczyk, Biblioteca

20h45
Serpente com Pele de Mulher (Lucio Fulci, 1971), M/17, Sala Raul Solnado

22h30
Filme Falado Especial: conversa sobre o filme de Lucio Fulci com o convidado Vasco T. Menezes, Sala Raul Solnado

23h15
Convívio com os 3, Sala Raul Solnado


Entrada gratuita para todos os eventos. Destina-se apenas a fins educativos.


Este é o clipe de apresentação do evento:





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