O Melhor de Jess Franco


























A iniciativa Jess Franco: Um Mapa nasceu de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there, em colaboração com a página The astounding Dr. Wollmen in the charming planet of the secret wonders, com o propósito de lançar pistas sobre um universo autoral rico, que em Portugal ainda não teve a divulgação merecida. Durante quatro meses, destacámos um conjunto de dezoito filmes que consideramos representativos de diferentes fases da longa carreira de Jess Franco (1930–2013), repartida pela realização, a escrita de argumentos, a composição sonora ou a representação. Como ponto final deste ciclo, apresentamos as listas elaboradas pelos blogues My Two Thousand Movies e there's something out there relativas aos melhores filmes realizados por Jess Franco.


O Melhor de Jess Franco, pelo My Two Thousand Movies

#01  Vampyros Lesbos (Las vampiras, 1970)
#02  Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z, 1965)
#03  Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof, 1961)
#04  Paroxismus (Venus in Furs, 1968)
#05  Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion (1969)
#06  La comtesse noire (Female Vampire, 1973)
#07  99 Women (1968)
#08  Necronomicon - Geträumte Sünden (Succubus, 1967)
#09  Die Liebesbriefe einer portugiesischen Nonne (Cartas de Amor de Uma Freira Portuguesa, 1976)
#10  Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, 1974)


O Melhor de Jess Franco, pelo there's something out there

#01  Eugénie (Eugenie de Sade, 1970)  
#02  Gemidos de placer (1982)
#03  Necronomicon - Geträumte Sünden (Succubus, 1967)
#04  Paroxismus (Venus in Furs, 1968)
#05  Eugenie, Historia de una perversión (1980)
#06  Christina, princesse de l'érotisme (A Virgin Among the Living Dead, 1971)
#07  Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, 1974)
#08  Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof, 1961)
#09  Vampyros Lesbos (Las vampiras, 1970)
#10  Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z, 1965)


O My Two Thousand Movies e o there's something out there agradecem a todos os que seguiram a iniciativa e a The astounding Dr. Wollmen in the charming planet of the secret wonders pela amável colaboração na pesquisa e selecção dos posters e lobby cards.

O there's something out there agradece ao Francisco, pela paciência inesgotável, ao Bruno, ao Paulo e à Rita, pelo apoio, e a Tim Lucas e Robert Monell, pela inspiração.


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Snakewoman




















Snakewoman (Jess Franco, 2005)




Na entrada da década de 1990, a carreira de Jess Franco é marcada por dois factos aparentemente contraditórios: por um lado, o seu trabalho antigo recebe uma divulgação excepcional através de edições em VHS e destaques em publicações; por outro, a sua produção diminui de forma considerável, realizando apenas três obras em cinco anos, para além do seu envolvimento na finalização de Don Quijote (1992), projecto que Orson Welles deixara incompleto. Já em 1987, Faceless (Les prédateurs de la nuit), mais que o anúncio, era o certificado definitivo da morte  do cinema de terror europeu, sistema de produção e distribuição - do qual Jess Franco fora uma das peças chave - que conseguira resultados notáveis até 1984, com os seus próprios estúdios, vedetas, técnicos, editores, salas, críticos e revistas. A investigação e a produção de conhecimento em torno do cinema mais obscuro, levada a cabo por um conjunto de críticos anglo-saxónicos, cede um  enorme espaço mediático a Jess Franco, com o levantamento e organização da sua vasta filmografia e a chamada de atenção para títulos desconhecidos ou considerados perdidos. Em 1990, Tim Lucas inicia a publicação da revista Video Watchdog (1990- ), onde inclui o ensaio seminal How to Read a Franco Film. Outras publicações - como Obsession - The Films of Jess Franco (Lucas Balbo, Peter Blumenstock, Christian Kessler, Tim Lucas, 1993), Immoral Tales: European Sex & Horror Movies 1956-1984 (Cathal Tohill, Pete Tombs, 1995) e Manacoa Files (Alain Petit, 1994-1995), todas esgotadas e, em segunda mão, vendidas a preços proibitivos - divulgaram e impuseram Franco enquanto autor, criando uma base sólida de fãs interessados e curiosos relativamente a todos os aspectos que rodeiam a sua vida e obra. Anos depois, as edições em DVD (com a inclusão de entrevistas e comentários de especialistas) e a intensificação do uso da internet (os blogues, os sites e as redes sociais) fariam o resto, numa aproximação revolucionária entre criador e público. O blogue I'm in a Jess Franco State of Mind, de Robert Monell, e os foruns Cinemadrome, também dinamizado por Monell, e The Latarnia Forums são alguns dos exemplos que melhor ilustram este notável trabalho de divulgação.

É neste ambiente, de crescente interesse pela obra de Jess Franco e da sua incapacidade em produzir e distribuir os novos filmes, que surge o futuro produtor Kevin Collins. Enquanto recolhia material sobre estrelas do cinema de terror europeu, Kevin Collins encontrou-se com os seus ídolos, Lina Romay e Jess Franco, com vista a incluir o trabalho da actriz numa publicação. Durante o encontro, em Madrid, decidiram fazer um filme em conjunto, com Collins a participar como produtor. Isto traduziu-se na criação da produtora One Shot Productions, parceria entre Kevin Collins e Hugh Gallagher, da distribuidora Draculina Cine, e no filme Tender Flesh (Carne Fresca, 1996). Seguiram-se, ainda em conjunto com Jess Franco, Lust for Frankenstein (1998), Mari-Cookie and the Killer Tarantula (1998), Broken Dolls (1999), Dr. Wong's Virtual Hell (El infierno virtual del Dr. Wong, 1999), Red Silk (1999), Vampire Blues (1999), Blind Target (Objetivo a ciegas, 2000), Helter Skelter  (2000), Vampire Junction (2001), Incubus (2002), Killer Barbys vs. Dracula (2002), Flores de perversión (2005), Flores de la pasión (2005) e Snakewoman (2005). Ou seja, uma década de produção, em que Jess Franco filma em suporte digital exclusivamente para uma produtora dirigida por um admirador, em edições limitadas direct to video, dirigidas a uma sólida base de fãs. Uma liberdade não isenta de restrições pontuais, que Jess Franco aceita contrariado, nomeadamente quanto à diferença na duração e conteúdo erótico entre as edições americanas e espanholas de alguns títulos.



















Snakewoman (Jess Franco, 2005)




Snakewoman foi disponibilizado numa edição da Sub Rosa Studios, entretanto esgotada, com áudio em castelhano e legendagem incrustada em inglês. Como extra oferecia uma versão uncut de Dr. Wong's Virtual Hell. Combinando Jess Franco, Dracula e Marlene Dietrich, o enredo adapta livremente Vampyros Lesbos (Las vampiras, 1970), centrado num processo de aquisição de direitos sobre o trabalho de uma artista controversa envolvida em escândalos sexuais, Oriana Balasz, que teria a mesma idade de Franco, cerca de setenta e cinco anos. Uma agência envia Carla (Fata Morgana) para se encontrar com os herdeiros da artista para concluir a compra. É recebida por uma mulher (Carmen Montes) com uma enorme tatuagem de uma serpente que lhe envolve o corpo e que aparenta ser Oriana Balasz, ainda jovem, sem sinais da passagem do tempo. Na moradia existe uma fotografia autografada de Marlene Dietrich. A primeira vez que a vemos é ainda nos créditos quando é assinalado o nome do realizador. O elenco é completado pelos históricos Lina Romay e Antonio Mayans. Como nas restantes colaborações com Kevin Collins e nos auto-financiamentos que dirigiu até à sua morte, Jess Franco mostra estar consciente do público a que se dirige e encerra os filmes num sistema auto-referencial, com acesso codificado e reservado a um sector especializado ou bem familiarizado com a sua produção. Curiosamente, ou talvez não, o último filme que Jess Franco finalizou, Al Pereira vs. the Alligator Ladies (2012), contém nos agradecimentos: blogues, bloggers, críticos e divulgadores, entre uma lista de admiradores, mais ou menos famosos. Em termos narrativos existe uma dificuldade em detectar focos dramáticos - se é que realmente existem - e estabelecer a sua ligação. As cenas eróticas entre mulheres, às vezes em slow motion, chegam a durar cerca de meia hora, induzindo uma percepção do tempo como resultado do excesso da duração e do vazio instalado. Também, um certo amadorismo cultivado na sua produção antiga, que, paradoxalmente, tornar-se-ia numa das marcas do seu universo autoral, aparece agora exacerbado pelo uso da câmara de vídeo, que, além da imagem, capta o som, e pela aplicação de vulgares, e baratos, filtros e efeitos digitais durante a edição. Em Paula-Paula (2010), a que Franco chama "una experiencia audiovisual inspirada en Jekyll y Hyde de R. L. Stevenson", o uso de técnicas de tratamento digital é levado ao limite manipulando e distorcendo o corpo da mulher até atingir formas extremas de abstracção.

Todos estes sinais colocam a radicalidade da sua abordagem, não como um redutor tratamento amador, mas sim como um regresso aos desafios das vanguardas americanas e europeias, nos anos sessenta e setenta, e às interrogações, em torno da edição, da posição da câmara, do som, da construção da narrativa e do papel do espectador, dirigidas ao ilusionismo do cinema de Hollywood. Sobre a problemática deste ponto, é esclarecedor um artigo que Brad Stevens escreveu para o British Film Institut, em que discute a produção final de Jess Franco. Retomando a justificação do British Board of Film Classification (BBFC) em recusar a certificação para a distribuição de Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, 1974) - the work of this particular filmmaker has often fallen well outside the parameters of BBFC standards... offering little pleasure to the viewer other than a conscious vicarious gratification of misogyny –, Brad Stevens contrapõe: one of the most touching aspects of Franco’s final period is the way he continued making erotica focused on his long-term partner, star and muse Lina Romay (who passed away last year)... Yet, in the context of a cinema where only young bodies are presented as attractive, Franco’s insistence that a woman in her fifties can still be viewed as a sexual ‘object’ seems positively revolutionary. Perhaps ‘misogyny’ and ‘feminism’ can no more be unproblematically opposed than amateurism and professionalism, exploitation and art, childish innocence and sexual perversity, or creator and audience.



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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Faceless: posters


Este material é fruto de um trabalho de pesquisa e selecção da responsabilidade da página The astounding Dr. Wollmen in the charming planet of the secret wonders.


Faceless (Les prédateurs de la nuit, Jess Franco, 1987)



País de origem: França
Autor: desconhecido

País de origem: França
Autor: desconhecido





País de origem: Espanha
Autor: desconhecido

País de origem: Estados Unidos da América
Autor: desconhecido





A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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Faceless (Les prédateurs de la nuit)


Les yeux sans visage (Georges Franju, 1960)




Tendo percorrido, em repetições sucessivas, muitas das variantes do cinema de terror (canibais, vampiros, zombies, fantasmas, demónios, women in prison, nunsploitation) era natural que, um dia, Jess Franco chegasse ao splatter e ao slasher. Não é que antes tivesse evidenciado uma apetência para mostrar sangue, já que muitas vezes ele surgia de forma forçada, como se fosse feito a partir de bâton ou tinta, mas mais por propostas vindas de produtores. Foi o que aconteceu nos anos 80, com Die Säge des Todes (Bloody Moon, 1980) e Faceless (Les prédateurs de la nuit, 1987). Entre muitos filmes de família, concretizados com pequenas equipas e capital maioritariamente espanhol, recebeu convites para realizar, o que, comparativamente, poderiam ser consideradas grandes produções. O resultado, para além da convocação de personagens, temas e histórias antigas, são títulos que, a nível formal, custa a enquadrar na sua produção da década anterior, pelo cuidado redobrado com a linearidade narrativa e um maior controlo no uso da improvisação, do zoom e do foco. Bloody Moon acontece com a participação de capitais alemães, para tirar partido do triunfo internacional das séries norte-americanas Halloween (1978-2009) e Friday the 13th (1980-2009), iniciadas por John Carpenter e Sean S. Cunningham, respectivamente, e que tiveram como precursora, a partir da Europa, a obra-prima de Mario Bava, Reazione a catena (A Bay of Blood, 1971). Jess Franco pega na premissa essencial do slasher, a morte em série de adolescentes algo desmiolados, e engendra uma história passada numa escola de aprendizagem de línguas, na costa de Alicante (Espanha), povoada por jovens louras estrangeiras que exploram intensamente os prazeres do sul da Europa. Uma intriga paralela em torno de uma família rica, com lutas entre os herdeiros, ainda baralha os dados, ao apontar mais para os códigos do giallo que do slasher, mas o resultado é de uma eficácia sensaborona, em que não basta o nome de Franco nos créditos para o diferenciar dos muitos derivados que os exemplos mencionados criaram pelo mundo fora. Colocado à apreciação do British Board of Film Classification, tendo em vista a sua distribuição no Reino Unido, foi conduzido imediatamente para a lista dos video nasties. Mais para o final da década, Jess Franco retomaria a colaboração com o estúdio francês Eurociné, que antes dera resultados tão frutuosos, mas que então origina produções marcadas pelo refrear das obsessões e de um interesse reduzido.

Faceless foi co-escrito e produzido por René Chateau, conhecido pelas companhias de produção e distribuição que detivera em conjunto com o actor Jean-Paul Belmondo. O orçamento foi confortável e o elenco pertence a várias nacionalidades, com caras reconhecíveis do grande ecrã (Helmut Berger, Brigitte Lahaie, Telly Savalas, Christopher Mitchum, Stéphane Audran e Caroline Munro) e habituais do cinema de Jess Franco, em cameos (Howard Vernon e Lina Romay). O argumento é uma actualização do primeiro filme de terror do cinema espanhol, Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof), realizado por Franco em 1961, que, por sua vez, se inspirava em The Dark Eyes Of London (1924) de Edgar Wallace e Les yeux sans visage (1960) de Georges Franju. Na novela de Wallace, um médico executa crimes com a ajuda de um cego, enquanto, em Les yeux sans visage, Franju conta a história de um cirurgião que recorre à pele de jovens para recuperar a face da filha. Para Gritos en la noche, Franco coloca o Dr. Orlof, com a ajuda de um assistente cego, a raptar jovens cantoras, de quem retira a pele para restaurar a face desfigurada da filha. No contexto europeu, a novidade de Gritos en la noche residia na ousadia com que abordava o erotismo e a perversidade. Gritos en la noche e Faceless são, respectivamente, o começo e o fim do reinado do Doutor Orloff (entretanto, o nome ganharia mais um F) na obra de Jess Franco. Pelo meio, ficariam outras revisitações ou sugestões da sua acção: El secreto del Dr. Orloff (1964), Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z, 1965), Los ojos siniestros del doctor Orloff (1973) ou El siniestro doctor Orloff (1982). 

Em Faceless, a narrativa de Gritos en la noche é actualizada, com a acção deslocada de uma cidade provinciana, dos seus ambientes expressionistas e contaminados pelos filmes de monstros da Universal, para o luxo e sofisticação dos meios abastados de Paris. Em vez da cacofonia vanguardista de Jose Pagan e Antonio Ramirez Angel, as baladas doces de Romano Musumarra interagem com o glamour e as aspirações da sociedade de consumo. Um famoso cirurgião plástico, Frank Flamand (Helmut Berger), usa as facilidades da clínica que dirige, para executar operações cirúrgicas, que se destinam a transplantar tecido da face de raparigas para a da irmã (Christiane Jean), que se encontra desfigurada devido a um acidente em que ele fora, indirectamente, responsável. Howard Vernon interpreta o Dr. Orloff, tanto em Gritos en la noche como em Faceless. Se no primeiro é a mente por detrás dos crimes, no segundo surge como elemento secundário que sugere um médico nazi refugiado em Espanha - a pátria de Jess Franco, de onde estivera exilado durante muitos anos, até ao fim da ditadura do General Franco - para ajudar Flamand nos transplantes. Lina Romay, musa e interprete de várias dezenas de filmes de Franco, é a companheira-criada de Orloff, que a apresenta como a sua melhor criação. Jess Franco parece divertir-se a distribuir alfinetadas, aqui e ali, aparentemente inofensivas, mas que resultam verrinosas para quem estiver familiarizado com a sua vida e obra. A poesia do belíssimo filme de Franju, que ainda espreitava em Gritos en la noche, cede lugar ao excesso do gore presente nas mutilações e cirurgias, transformando-o no seu filme mais sanguinolento. Entre as mutilações brutais com variados objectos existem as operações para retirar o tecido facial, em ambiente clínico e higiénico, que são detalhadas e de uma crueldade não aconselhável a almas sensíveis, com as vítimas imobilizadas, a observarem todos os movimentos. Numa delas, o médico, depois de retirar todo o tecido, vira-o para a cara da mulher a que pertencia, onde estão apenas intactos os olhos, que o fixam, aterrorizados. Uma maior cautela na exploração do erotismo e a proposta de equilíbrio entre o gore e a sofisticação, mantêm Faceless longe da experimentação visual da década de 1970, mas bem para além da mecânica das mortes em série de Bloody Moon. Num momento, em que o nome do realizador ganhava um novo fôlego com as edições em vídeo do seu trabalho antigo e de renovado interesse por parte da crítica especializada, Faceless testemunha os ventos de mudança, como o adeus definitivo à época dourada do cinema de terror europeu, entre 1956 e 1984, e aos seus próprios canais de produção e de distribuição (estúdios, editores, salas, actores, técnicos e revistas). Não são sinais de menor importância, a abertura dos créditos com uma dedicação ao Midi-Minuit, sala mítica parisiense, entretanto desaparecida, especializada em terror e erotismo, e o destaque no elenco a Brigitte Lahaie, uma das mais elegantes estrelas europeias, que procurava consolidar a carreira fora do circuito X, que Jean Rollin lhe tinha oferecido. No mercado digital, Faceless está disponivel em edições da René Chateau Vidéo (França) e da Shriek Show (Estados Unidos), divisão da Media Blasters vocacionada para o cinema de terror das margens.





















Faceless (Les prédateurs de la nuit, Jess Franco, 1987)




A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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Gemidos de placer: posters


Este material é fruto de um trabalho de pesquisa e selecção da responsabilidade da página The astounding Dr. Wollmen in the charming planet of the secret wonders.


Gemidos de placer (Jess Franco, 1982)



País de origem: Espanha
Autor: desconhecido




A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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Gemidos de placer






Gemidos de placer (Jess Franco, 1982)




A morte do General Franco traz a queda da censura e promove mudanças de costumes na sociedade espanhola. No período histórico correspondente à transição entre a ditadura e a democracia, Transición Española, deu-se um fenómeno cinematográfico conhecido como Destape, caracterizado pela exploração do nu integral de homens e mulheres, antes impossibilitado pela censura franquista. Os filmes que Jess Franco dirigira durante o exílio voluntário, para circularem em Espanha, foram alvo de cortes severos no material que pudesse provocar a censura. Com o regresso a Espanha, dirige uma avalanche de abordagens eróticas claramente causticas, algumas em tom de comédia, e revisitações a algumas das personagens que lhe deram fama, como Al Pereira, Eugénie e Orloff. Exceptuando grandes produções, entre as quais Faceless (Les prédateurs de la nuit, 1987) e Operación cocaína (1988), suscitadas pela popularidade que, entretanto, alcançara com a distribuição internacional de filmes antigos em formato VHS, os títulos que realiza a partir de inícios dos anos 80 são filmes de família, de orçamento baixo e de equipas pequenas, em que a parte técnica chega a ser assegurada pelos actores. Anos depois, a utilização da câmara de vídeo viria simplificar o processo. Desta forma,  Franco fica livre de produtores emblemáticos - Daniel e Marius Lesoeur, Allan Towers, Artur Brauner, Robert de Nesle, Erwin C. Dietrich e, mais tarde, Kevin Collins - para se dedicar aos filmes que sempre quis fazer, com a ajuda de pequenas companhias. Em Espanha, a legalização da produção de pornografia só chegaria em 1983. Franco que estava a terminar Lilian (la virgen pervertida) (1983), filma cenas adicionais com sexo explícito, tornando-o no primeiro filme pornográfico espanhol. A actriz Katja Bienert ficaria irritada com o realizador por ter utilizado, nessas cenas, o corpo de um duplo seu, associando-a, com pouco mais de dezasseis anos, a um filme pornográfico. Entre os filmes mais importantes que Franco dirigiu, após o regresso a Espanha, encontram-se Eugenie, Historia de una perversión (1980), El sexo esta loco (1980), Macumba Sexual (1981), Gemidos de placer (1982), Sola ante el terror (1983), Faceless e Snakewoman (2005).

A narrativa de Gemidos de placer é baseada em escritos do Marquês de Sade e pode ser vista como uma revisão de Plaisir à trois (1973), pelo menos no que diz respeito ao desenlace final. Gemidos de placer foi todo rodado numa moradia junto à baía de Calpe (Alicante), propriedade de Emilio Larraga, da companhia espanhola Golden Films Internacional S.A., produtora do filme. Em frente à moradia e presente na maioria dos planos de exterior, vemos o Peñon de Ifach, uma enorme estrutura rochosa  elevada sobre o mar e ligada à costa por apenas um delgado fio de terra. Por perto, sabemos que se encontram La Muralla Roja e Xanadú, edifícios desenhados por Ricardo Bofill, que adquirem uma carga simbólica forte em vários filmes de Jess Franco e que aqui se recusa a mostrar. Ao escolher o título para o filme, Franco é muito claro no programa que dirige e não engana o espectador quanto ao que o espera. Entre o fim de tarde e a madrugada, em poucas dezenas de planos sequência, de forma a induzir uma sensação de tempo real, cinco personagens deambulam por uma casa em repetidos encontros sexuais. Antes da filmagem, cada cena foi devidamente ensaiada, como se tratasse de uma elaborada peça de palco. O inicio do filme dá-se com o anúncio duma morte e em formato flashback o espectador conhece os detalhes do crime, a partir do relato, em off, de um criado mudo, a quem cabe também acompanhar os actos sexuais com a música que dedilha da guitarra. Jess Franco não participa fisicamente como actor, ao contrário do que acontece na maioria dos seus filmes, mas dá a voz à consciência do criado, enquanto observador e testemunha. A economia da história, a escassez dos diálogos e a repetição obsessiva dos actos físicos nas suas múltiplas variantes encontram paralelo no dispositivo do hardcore, mas, ao mesmo tempo, Jess Franco parece querer negá-lo, quando coloca a câmara atrás de estores, cortinas ou janelas e portas entreabertas, o que dificulta os grandes planos e a visibilidade sobre as partes mais intimas dos corpos. A música, da responsabilidade de Jess Franco e de Pablo Villa (nome fictício, atribuído à parceria entre Franco e Daniel White), mantém o ritmo entre as cenas e sustem as longas acções performativas que os actores dirigem em frente à câmara, que passeia errante pelo espaço, direccionando o olhar do espectador, ora mostrando, ora escondendo, numa sequência interminável de movimentos, zooms e manipulações do foco. Enquanto vibrante coreografia de corpos, Gemidos de placer avança como se fosse um sonho e termina em pesadelo. A Franco não interessa a representação do acto sexual enquanto mecanismo simples para a estimulação e criação de prazer, mas antes como parte de um inquietante e violento ritual de morte, que coloca em cena sentimentos de culpa e de dor. É ao criado Fenul (Juan Soler), a única testemunha, e ao amo assassinado (Antonio Mayans) que jaz na piscina, a quem compete abrir e encerrar o filme, depois de as duas mulheres autoras do crime (Lina Romay e Rocío Freixas) terem partido. Fenul fala de perda e solidão, dele, do amo e dos homens. Ao fundo, em ambas as cenas, permanece o Peñon de Ifach, que, num fácil jogo de associações, poderíamos imaginar como uma presença ostensivamente masculina que se ergue sobre o mar. Ou ainda, como a imagem de uma monumentalidade efémera que a erosão da natureza força a desintegrar-se, separando-o da costa. Gemidos de placer é um filme raro, que foi lançado no mercado em edições espanholas, que se encontram esgotadas ou de difícil acesso. Tendo em conta a crescente divulgação internacional que a obra de Jess Franco conheceu nos últimos anos, Gemidos de placer merecia mais. Trata-se de um dos mais belos e secretos filmes de Jess Franco e uma obra marcante do cinema erótico.


A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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