Les possédées du diable: posters


Este material é fruto de um trabalho de pesquisa e selecção da responsabilidade da página The astounding Dr. Wollmen in the charming planet of the secret wonders.


Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, Jess Franco, 1974)



País de origem: França
Autor: desconhecido

País de origem: Itália
Autor: desconhecido





País de origem: Bélgica
Autor: desconhecido

País de origem: Estados Unidos da América
Autor: desconhecido




A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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Les possédées du diable (Lorna The Exorcist)


Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, Jess Franco, 1974)




Ao dividir a produção de Jess Franco por períodos, a publicação Obsession - The Films of Jess Franco (Lucas Balbo, Peter Blumenstock, Christian Kessler, Tim Lucas, 1993) considera os anos entre 1973 e 1979 como The Porno Holocaust Years. Como tínhamos referido logo a propósito de 99 Women (1968), os estúdios e distribuidores acrescentavam inserts hardcore nos filmes, sem o envolvimento ou consentimento do realizador. Les avaleuses, a versão hardcore de La comtesse noire (Female Vampire, 1973) é considerada a primeira entrada de Jess Franco em terreno explícito, em que é responsável pela filmagem dos segmentos que os estúdios exigiam para responder à invasão do porno feito nos Estados Unidos. A situação repetir-se-ia por muitos mais filmes, sem que isso resultasse propriamente chocante ou numa mais valia,  quando contraposto à singularidade da encenação e ao carácter bizarro das histórias. Descontente com o regime do General Franco e vivendo fora de Espanha, escondido sob vários pseudónimos, este foi um dos seus períodos mais produtivos, chegando a envolver-se em mais de uma dezena de filmes por ano, em que acumulava a direcção, com a actuação, a fotografia, a escrita das histórias ou a composição sonora. Após vários bons filmes para Robert de Nesle -  Al otro lado del espejo (1973), La comtesse perverse (1973) e Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, 1974) -, na segunda metade da década, Franco refugia-se em Zurique, a trabalhar para a Elite Film do produtor Erwin C. Dietrich. Foi tempo de se dedicar, entre outros, a um aprofundamento do género Women in Prison, ainda que com resultados decepcionantes - Frauengefängnis (Barbed Wire Dolls, 1975), Greta - Haus ohne Männer (Wanda, the Wicked Warden, 1977), Frauen für Zellenblock 9 (Women in Cellblock 9, 1977) e Frauen im Liebeslager (Love Camp, 1977) -, ao famoso "porno" rodado em Portugal, em monumentos e com actores nacionais - Die Liebesbriefe einer portugiesischen Nonne (Cartas de Amor de Uma Freira Portuguesa, 1976) -, a uma actualização inspirada de La comtesse noire - Die Marquise von Sade (Doriana Gray, 1976) -, e ao seu último filme protagonizado por Klaus Kinski - Jack the Ripper - der Dirnenmörder von London (1976). Entretanto, estabelece-se por um pequeno periodo em Paris, seguido do seu regresso a Espanha, na passagem da década, em que retoma o melhor da sua veia criativa e realiza outro punhado de obras maiores.

Les possédées du diable é uma remontagem do mito de Fausto escrita por Jess Franco e Robert de Nesle, com a ajuda da mulher de Franco, Nicole Franco, na adaptação e nos diálogos. Argumento simples, que poderia caber em meia dúzia de linhas, e uma boa dose de improvisação no campo visual, assim se poderia resumir o método seguido por Franco. A felicidade no casamento de Marianne (Jacqueline Laurent) e Patrick (Guy Delorme) é interrompida por um telefonema de Lorna (Pamela Stanford) que vem reclamar a filha do casal, Linda (Lina Romay). Tendo oferecido a prosperidade ao casal, Lorna, que se considera a verdadeira mãe, exige que lhe seja entregue Linda, no seguimento do que tinha estabelecido anteriormente com Patrick. A recusa em aceitar o acordado, resulta numa vingança, em que Linda é possuida por Lorna e é colocado em causa o status quo familiar. A produção de Les possédées du diable acontece numa época em que o cinema vivia obcecado com demónios e exorcismos. The Exorcist (O Exorcista, William Friedkin, 1973) é o exemplo mais conhecido e que deu visibilidade a uma tendência importante do cinema de terror que se estendeu até aos dias de hoje. A representação do mal adquiria uma forma gráfica aterradora que provocava medos e pesadelos no grande público que acorria em enchente às salas de cinema. A violação do corpo da criança, a sua mutilação e sexualização, tornou-se parte do imaginário popular a partir de uma representação explícita sem precedentes no cinema de terror dos grandes estúdios, tendo The Exorcist sido o primeiro título do género a ser seleccionado para o Oscar de Melhor Filme. Com o intuito de capitalizar o sucesso do tema apareceram sucedâneos por todo o mundo, com alguns a copiarem o modelo, cena a cena. Curiosamente, Mercedes McCambridge, que dá a voz ao demónio Pazuzu de The Exorcist, fora actriz para Jess Franco em 99 Women e Marquis de Sade: Justine (Deadly Sanctuary, 1968). 

O lançamento de Les possédées du diable neste contexto, pode ser entendido mais como uma exploração da curiosidade pública pelo tema do que uma mera reprodução do filme de William Friedkin. Les possédées du diable envereda por uma abordagem erótica arrojada, embora à margem do que habitualmente catalogamos como pornográfico, e que toma o incesto como verdadeiro tema. As tentativas de uma mulher em resgatar a filha adolescente de um demónio, são substituídas por uma progenitora que corrompe a alma da filha, de modo a que esta a possa substituir na prossecução da sua agenda. Com um orçamento mínimo, Franco, creditado como Clifford Brown, substitui o horror gráfico e os efeitos especiais por cenas longas rasgadas pelo delírio e em que pouco se passa, alinhando-as por meio de uma banda sonora dolente, da autoria de André Bénichou, que assenta na repetição como um disco riscado que teima em não avançar. Perto do final, enquanto a zona púbica da mãe biológica, Marianne, é invadida por parasitas em forma de caranguejo, Lorna, qual demónio mascarado de mãe, executa um ritual de possessão em que lambe o sangue do dildo enorme com que profanara o corpo da filha virgem. Esta ultima acção ocorre fora de campo, sinalizada por um grito terrível de Linda que encontra eco no horror que invade o espectador. Mesmo que reconheçamos aqui um dos melhores papeis de Lina Romay na década de setenta, não podemos esquecer a pose transgressora de Pamela Stanford, com os figurinos de Paco Rabanne e os efeitos verdes acentuados da maquilhagem, que dialoga com a arquitectura utópica que Jean Balladur concebeu para o local em que decorreram as filmagens, a estação balnear de La Grande-Motte (França). Les possédées du diable pode ser encarado como um acto de fé. Não vai convencer os descrentes, mas os que persistirem serão surpreendidos pela vertigem de uma obra de posição incerta, entre o apelo do hardcore, do terror e da arte.























Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, Jess Franco, 1974)




Com a edição exemplar de Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z, 1965), a companhia norte-americana Mondo Macabro disponibilizara um dos melhores lançamentos em DVD da obra de Jess Franco. Seguiram-se Le journal intime d'une nymphomane (Sinner! The secret diary of a nymphomaniac, 1972), Les possédées du diable (Lorna The Exorcist) e La comtesse perverse (Countess Perverse). Les possédées du diable foi remontado numa versão restaurada de cerca de cem minutos, a partir de diversas fontes, incluindo o negativo original, tendo em vista recriar o cut definido por Franco. Acompanham áudios em francês e inglês (a evitar) e a opção de legendagem em inglês. Para além de notas de produção, biografias e trailers, dos extras fazem parte entrevistas ao crítico e músico Stephen Thrower, Fear and Desire: Stephen Thrower on Jess Franco e Stephen Thrower on Lorna, e ao designer de som e colaborador habitual Gérard Kikoïne, Gerard Kikoine on Jess Franco.


A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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A Iniciativa Jess Franco: Um Mapa no Jornal Expresso



































Expresso, Atual nº 2139, 26 Outubro 2013




O semanário Expresso, no suplemento Atual, considerou a iniciativa Jess Franco: Um Mapa numa coluna de sugestões da responsabilidade do curador e crítico de arte Bruno Leitão. Aproveitamos para agradecer a todos os que acompanham a iniciativa, às parcerias e colaborações.


Link para a apresentação da iniciativa e de todo o material 


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Ricardo Bofill, La Muralla Roja e Xanadú nos Filmes de Jess Franco


Ricardo Bofill, La Muralla Roja e Xanadú (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)




Formado na Suíça, depois de ter sido expulso da Escuela Técnica de Arquitectura de Barcelona, por alegadas ligações ao Partit Socialista Unificat de Catalunya, Ricardo Bofill dedicou cerca de duas décadas a projectos arquitectónicos destinados à urbanização La Manzanera, em frente ao Peñon de Ifach (Calpe, Alicante, Espanha). As construções no complexo turístico decorreram entre 1964 e 1982, com o desenvolvimento de diferentes unidades de apartamentos e vivendas: Plexus (1966), Xanadú (1967), Conjunto residencial  (1967-1971), La Muralla Roja (1973) e Anfiteatro (1981). Numa altura em que se assistia a uma desregulação da construção na costa espanhola, motivada pela exploração imobiliária selvagem do mercado turístico, o projecto propunha um diálogo com a paisagem circundante, em busca de novas relações com o meio ambiente e a sustentabilidade. A vontade de experimentação formal sobre uma costa rochosa disposta em forma de anfiteatro em frente ao mar, resultou na reconstrução de uma extraordinária paisagem natural para que pudesse cumprir funções ligadas a férias e ocupação de tempos livres. Uma vez que o projecto se prolongou por um longo período de tempo e ainda que prevalecesse uma vontade de coerência, cada unidade foi olhada como um ensaio em torno da forma e da linguagem, de modo que num único local se pode assistir às mudanças que foram ocorrendo na historia da arquitectura contemporânea. Pelo jogo de formas e cores, os dois edifícios mais emblemáticos de La Manzanera são La Muralla Roja e Xanadú. La Muralla Roja assemelha-se a uma estrutura militar sedimentada na costa rochosa. As cores que exibe, em diferentes tons de azul e vermelho, existem em função da intensidade da luz mediterrânica, que as pode moderar ou tornar mais vivas. Xanadú parece uma desconstrução da forma de um castelo, segundo uma perspectiva cubista, como resposta à robustez efémera do Peñon de Ifach, um “acidente” que a natureza quase libertou da costa. Num projecto mais actual e noutro registo, em linhas mais clássicas, Ricardo Bofill é responsável pelo edifício Atrium Saldanha, em Lisboa, que recebeu o Prémio Valmor de Arquitectura 2001.



Ricardo Bofill, La Muralla Roja (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)




Within the context of La Manzanera, La Muralla Roja (The Red Wall) asks to be considered as a case apart. It embodies a clear reference to the popular architecture of the Arab Mediterranean, in particular to the adobe towers of North Africa. The Red Wall is like a fortress which marks a vertical silhouette following the contour lines of the rocky cliff.  With this building the Taller de Arquitectura wanted to break the post-Renaissance division between public and private spaces reinterpretating the Mediterranean tradition of the casbah. The labyrinth of this recreated casbah corresponds to a precise geometric plan based on the typology of the Greek cross with arms 5 meters long, these being grouped in different ways, with service towers (kitchens and bathrooms) at their point of intersection. The geometric basis of the layout is also an approximation to the theories of constructivism, and makes La Muralla Roja a very clear evocation of these. The forms of the building, evoking a constructivist aesthetic, create an ensemble of interconnected patios which provide access to the 50 apartments, which include 60 sqm studios, and two- and three-bedroom apartments of 80 and 120 sqm, respectively. On the roof terraces there are solariums, a swimming pool, and a sauna for resident’s use. The criterion of applying to the building a gamut of various colours responds to the intention to give a determined relief to the distinct architectural elements, according to their structural functions. The outside surfaces are painted in various tones of red, to accentuate the contrast with the landscape; patios an stairs, however, area treated with blue tones, such as sky-blue, indigo, violet, to produce a stronger or weaker contrast with the sky or, on the contrary, an optical effect of blending in with it. The intensity of the colours is also related to the light and shows how the combination of these elements can help create a greater illusion of space. (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)



Ricardo Bofill, Xanadú (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)




This 18-apartment building [Xanadú], as part of the La Manzanera development, was a prototype experiment in applying a methodology to the team’s theory of a garden city in space and should be read as one of many large interconnecting elements. The building took the castle as its point of reference, and evolved in such a way as to arrive at a configuration inspired by the nearby Peñon de Ifach crag. The unit of each apartment is composed of three cubes corresponding to living space, sleeping space and services. These three cubes are grouped around the vertical axis of the stair well which serves to support them. The cubes are then applied to the supporting circulation spine determined on an orthogonal grid, then broken down to satisfy the particular requirements of the program: in this case, shaded internal terraces to avoid the intense heat, hyperbolic roofs for better views, and adaptation to local building techniques. No plans or elevations were drawn during construction, but each unit has its exterior walls pierced according to orientation, light needs, kitchen extractor fans, ventilators, privacy, and connection points, and was positioned after model analysis diagrammatically on the engineer’s structural drawings. The rigid geometry of the cube, the basis of the initial structure, was fractured on the exterior angles in order to create an irregular façade with a spectacular interplay of light and shadow and multiple views of the landscape. (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)


Ricardo Bofill, Xanadú (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)




No que diz respeito à relação destes elementos da baía de Calpe com o cinema de Jess Franco, antes de mais, importa referir que, enquanto colaborador de Orson Welles e amante da sua obra, o nome Xanadú evoca a mítica morada de Charles Foster Kane em Citizen Kane (1941), realizado e interpretado por Welles. La Muralla Roja ou Xanadú existem também como componentes arquitectónicos que indiciam sinais perturbantes em alguns filmes de Franco - Sie tötete in Ekstase (She Killed in Ecstasy, 1970), La comtesse perverse (1973) e Eugenie, Historia de una perversión (1980) são os melhores exemplos. Quanto ao Peñon de Ifach, é o elemento distintivo da paisagem que rodeia a moradia onde decorre toda a acção de Gemidos de placer (1982). Jess Franco opta, quase sempre, por desligar estes elementos, como se não fizessem parte da mesma baía, o que informa sobre o papel que lhes atribui, abrindo a possibilidade de poderem comunicar com o interior das personagens. Em La comtesse perverse, radicaliza o gesto e liberta Xanadú de toda a paisagem circundante. Ao localizá-lo numa ilha deserta, faz com que a geometria da sua estrutura crie um contraste com a monotonia da costa rochosa, que desorienta os visitantes e o liga a imaginários clássicos do cinema de género. No entanto, não é Drácula que aguarda os visitantes, mas sim outros dois Condes, canibais.    



























Peñon de Ifach (Fonte: aqui)



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La comtesse perverse: posters e lobby cards


Este material é fruto de um trabalho de pesquisa e selecção da responsabilidade da página The astounding Dr. Wollmen in the charming planet of the secret wonders.


La comtesse perverse (Jess Franco, 1973)



País de origem: França
Autor: desconhecido




Lobby card francês

Lobby card francês




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La comtesse perverse

















La comtesse perverse (Jess Franco, 1973)




Robert de Nesle, dono da companhia CFPC (Comptoir français de productions cinématographiques), começou a produzir filmes de Jess Franco, depois de ter trabalhado com Henry Lepage, Georges Franju, José Bénazéraf, Riccardo Freda ou Ousmane Sembene. Por ser oriundo de uma família respeitada, corre o mito que nem a sua mulher sabia que tinha entrado no mundo da sexploitation. Entre os filmes que Franco criou para de Nesle encontram-se títulos importantes da sua obra, como La maldición de Frankenstein (Erotic Rites of Frankenstein, 1972), Al otro lado del espejo (1973), La comtesse perverse (1973) e Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, 1974). Grande parte dos filmes que resultaram desta parceria, foram rodados durante poucas semanas, em Portugal, procurando conciliar os baixos custos de produção locais com ambientes únicos que pudessem activar a imaginação efervescente do realizador. Mas, em La comtesse perverse a particularidade do cenário é fornecida pelo exterior de Xanadú e o interior de La Muralla Roja, projectos urbanísticos desenhados pelo arquitecto Ricardo Bofill para o complexo turístico La Manzanera (Calpe, Alicante, Espanha). Num registo diferente de linhas bem mais clássicas, este arquitecto é responsável pelo projecto Atrium Saldanha, em Lisboa. Para La comtesse perverse, Jess Franco, isolando Xanadú numa ilha deserta, faz com que a variação geométrica da sua estrutura lance um contraste perturbante com a monotonia da costa rochosa, que desperta nos visitantes o mesmo medo dos que se aproximam do castelo de Drácula, pela primeira vez. La Muralla Roja ou Xanadú são elementos arquitectónicos intrigantes em outros filmes de Jess Franco: Sie tötete in Ekstase (She Killed in Ecstasy, 1970) e Eugenie, Historia de una perversión (1980).

A estrela principal de La comtesse perverse é a modelo e actriz francesa Alice Arno (Marie-France Broquet), criando a imagem inesquecível da caçadora nua que vigia as dunas, em busca das suas presas. Víramo-la, pela primeira vez, num pequeno papel, numa das melhores cenas de Eugénie (Eugenie de Sade, Jess Franco, 1970), em que nem é mencionada nos créditos. Durante uma década teve uma carreira produtiva no cinema erótico e de terror europeu de baixo orçamento, trabalhando maioritariamente para a Eurociné e a CFPC. Como outras grandes estrelas do meio, com a implantação definitiva do hardcore, em 1977 retira-se do cinema, muito nova, aos 31 anos. Em La comtesse perverse, Alice Arno interpreta a Condessa Ivana Zaroff, proprietária de uma ilha misteriosa em que sobressai a casa extravagante (Xanadú) onde vive com o marido, o Conde Rabor Zaroff (Horward Vernon). Tom (Robert Woods) e Moira (Tania Busselier), um casal amigo que vive na ilha em frente, visita os Zaroff, levando consigo a jovem Silvia (Lina Romay).  Ivana e Rabor revelam um apetite exótico por repastos confeccionados com a carne dos convidados que Tom e Moira lhes trazem. Mas são incapazes de matar as presas a sangue frio. Amam a caça, enquanto jogo de vida e morte. Antes de os tornarem parte do menu, propõem aos convidados ser libertados se escaparem à caçada com arco e flecha que, ao nascer do dia, Ivana lhes fará. La comtesse perverse, foi produzido ao mesmo tempo que Plaisir à trois (1973), uma das adaptações livres de La Philosophie dans le boudoir de Sade por parte de Franco, partilhando parte da equipa de técnicos e de actores. A referência para La comtesse perverse é a história The Most Dangerous Game, de Richard Connell, publicada em 1924. A primeira adaptação cinematográfica data de 1932, realizada para a RKO por Irving Pichel e Ernest B. Schoedsack. Jess Franco faz uma revisão erótica com as mulheres em papeis centrais, actuando, quer como caçadoras, quer como presas, comandadas por impulsos selvagens. Aos homens, como quase sempre em Franco, cabe, pouco mais que, o papel de observadores que reagem de modo brando perante a possibilidade de agir e o aproximar da tragédia. Esta entrada de Jess Franco no tema do canibalismo, demarca-se de outras abordagens da produção da época, situando-a no seio da "civilização" ocidental, longe das culturas "primitivas" que infestavam as florestas tropicais, popularizadas por Ruggero Deodato e Umberto Lenzi. Em relação aos filmes que realizou neste período intenso de trabalho, Jess Franco denota aqui um maior cuidado com o desenvolvimento das personagens e da narrativa, mas, ao contrário da produção da concorrência, interessa-lhe a morte, e a sua degustação, enquanto relacionada com o impulso erótico e não com a violência gráfica. A este ultimo aspecto, Jess Franco responderia, de forma pobre, com Mondo cannibale (White Cannibal Queen, 1980) e Sexo caníbal (The Devil Hunter, 1980). O que não quer dizer que La comtesse perverse seja aconselhável para vegetarianos.

Como temos vindo a referir, chega a ser difícil acompanhar as versões que são feitas para cada filme que Jess Franco realizou durante a década de 1970. La comtesse perverse não é excepção. A versão original de Jess Franco foi considerada perdida durante muitos anos. O produtor Robert de Nesle, considerando excessivo o tema do canibalismo, avançado para a época, pediu a Jess Franco que adicionasse cenas cómicas com Lina Romay e Caroline Riviere e que amenizasse o final. Para uma outra versão, Les Croqueuses, foi solicitado a Franco que juntasse cenas de sexo explicito filmadas em Paris, entre Lina Romay e Pierre Taylou. Para completar o quadro, em Itália foi lançada outra versão, Sexy Nature, com novos inserts hardcore, não filmados por Franco e com outros actores. Em 2011, surgiram noticias do restauro do negativo original de Jess Franco, que a Mondo Macabro lançou em DVD no ano seguinte. A edição é considerada definitiva, com o áudio em francês e sem contar com os inserts que estrangulavam a atmosfera única da primeira versão. Os extras incluem: notas de produção e introdução por parte do crítico Stephen Thrower (antigo membro do grupo industrial Coil e autor da importante publicação Nightmare USA: The Untold Story of the Exploitation Independents); e entrevista com Robert Woods. Em França, a Artus Films lançou o mesmo título, colocando como extras os inserts eróticos de Les Croqueuses e o documentário Jess et la Comtesse pelo director de programação da Cinemateca Francesa, Jean-François Rauger. Para uma visão global de todo o processo de adulteração de La comtesse perverse, a Edition Tonfilm disponibilizou uma edição com dois discos. O primeiro inclui a versão original, e os inserts de Les Croqueuses como extra. Quanto ao segundo, é reservado a Sexy Nature. Enquanto o áudio é o original, a legendagem é em alemão.


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La comtesse noire: posters e lobby cards


Este material é fruto de um trabalho de pesquisa e selecção da responsabilidade da página The astounding Dr. Wollmen in the charming planet of the secret wonders.


La comtesse noire (Female Vampire, Jess Franco, 1973)



País de origem: França
Autor: desconhecido

País de origem: Alemanha
Autor: desconhecido





País de origem: Itália
Autor: desconhecido




Lobby card alemão




A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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La comtesse noire (Female Vampire)
















La comtesse noire (Female Vampire, Jess Franco, 1973) 



A morte de Soledad Miranda criou condições para o lançamento de Lina Romay como protagonista privilegiada dos filmes de Jess Franco. Baptizada Rosa María Almirall Martínez, adoptou o nome de Lina Romay, para constar na ficha técnica dos filmes em que participou. O alter ego foi roubado a uma cantora de mambo, de origem mexicana, com alguma experiência no cinema e foi escolhido por Jess Franco como homenagem ao mambo e ao cinema. Companheira de um habitual actor e assistente de câmara de Jess Franco, Ramon Ardid, começou por trabalhar no cinema, como apoio nos bastidores, nomeadamente na maquilhagem. Iniciou-se na representação com pequenos papeis, em La maldición de Frankenstein (Erotic Rites of Frankenstein, 1972), Los ojos siniestros del doctor Orloff (1973) e Plaisir à trois (1973). Aos dezanove anos, com La comtesse noire (Female Vampire, 1973) chega a protagonista sem precisar de dizer uma palavra, ao interpretar uma mulher vampiro muda, e lança-se na carreira que a colocaria como uma das peças centrais do erotismo internacional. Tornar-se-ia na companheira de Jess Franco, com quem casaria muitos anos mais tarde. Colaborou com o realizador em mais de cem filmes, dividindo-se pela representação, co-realização - principalmente em filmes hardcore -, ajuda nos argumentos e outras tarefas de produção. Morreria em 2012, vítima de cancro, uns meses antes do desaparecimento de Jess Franco.

Depois de um intervalo com Allan Towers, Artur Brauner e Robert de Nesle, La comtesse noire é o regresso de Jess Franco ao trabalho com Daniel e Marius Lesoeur, do estudio francês Eurociné. A invasão do porno made in USA, com o sucesso planetário dos títulos Behind the Green Door (Artie Mitchell, Jim Mitchell, 1972), Deep Throat (Gerard Damiano, 1972) e The Devil in Miss Jones (Gerard Damiano, 1973), e o aparecimento das estrelas Linda Lovelace e Marilyn Chambers, força os estúdios europeus a encontrar respostas vigorosas que garantam as necessárias quotas de mercado. Para a Eurociné, Jess Franco é nome certo. Tendo dado ao estúdio, durante a década anterior, um grupo de filmes de terror que obtiveram um sucesso apreciável, Jess Franco demonstrava um apetite natural para o erótico que agora poderia seguir por caminhos ainda mais arrojados, com a companhia da espontaneidade e desinibição de Lina Romay. Na publicação Immoral Tales: European Sex & Horror Movies 1956-1984, Cathal Tohill e Pete Tombs resumem, assim, o clima que se vivia na Europa, nessa época : many Continental low budget horror directors were forced to move sideways into the skin-flick market, where they turned out even weirder and wilder films in order to compete with the explicit attractions of porno. The films they made were filled with outrageous scenarios and strange fantasy, drawing heavilly on the same kooky material that had helped make their earlier horrors so potent. Inside Europe, audiences lapped up the weird thrills that these movies offered, causing them to become even wilder. Many of them were just too way out for overseas consuption. Too hotblooded and intense for England and the U.S.A. Unlike earlier, sexy, European films they couldn't be marketed as art. They were too strange and disreputable for that. As a result, many of them ended up mangled by the censor, with key scenes left lying on the cutting room floor. Para além de Jess Franco, são citados os casos de Jean Rollin, José Larraz, José Bénazéraf, Walerian Borowczyk e Alain Robbe-Grillet.
















La comtesse noire (Female Vampire, Jess Franco, 1973) 



Lina Romay é a insaciável vampira Irina Karnstein, condenada à imortalidade, que deambula pela Ilha da Madeira em busca de alimento, incapaz de alcançar a felicidade e pôr fim à solidão. Para a vigiar, tem o inseparável assistente, igualmente mudo (Luis Barboo). A errância eterna é questionada com a chegada do Barão Von Rathony (Jack Taylor) e o amor que desponta entre ambos. Com o nome de trabalho La comtesse noire, Jess Franco filmou durante uma semana na Madeira. Posteriormente, acrescentou outras cenas gravadas em França e na Bélgica. Foram criadas várias versões finais - circulando insistentemente, por todo o mundo, durante a época áurea do VHS - que, com diferenças substanciais, alteram por completo o resultado final. Essas diferenças recaem na abordagem de Irina Karnstein às suas vitimas. Numa dessas versões, colada ao cinema de terror, a vampira mata as vítimas sugando-lhes o sangue. Numa outra, mais longa e próxima de terrenos hardcore, a morte chega enquanto a vampira lhes sorve os fluidos sexuais. Pela proximidade temporal e temática de ambos os títulos, La comtesse noire é o Vampyros Lesbos de Lina Romay. Tal como em Vampyros Lesbos (Las vampiras, 1970), o apogeu de Soledad Miranda, a narrativa é construída sem grande preocupação com o medo ou o suspense e contornando as convenções do cinema de vampiros. Poucas características separam Irina Karnstein dos humanos, para além da imortalidade e da forma como se alimenta. É esta ultima faceta que converte a versão erótica na singularidade e bizarria que Cathal Tohill e Pete Tombs sugerem na publicação que referimos. Ao deslocar o alvo das investidas do vampiro, do pescoço para os órgãos sexuais, pega numa marca do cinema de terror sobejamente conhecida e utiliza-a de forma inusitada, e diríamos igualmente perturbante, para potenciar o material erótico. Aparentemente, num filme atmosférico como La comtesse noire, Lina Romay, sem falar, não teria muito a dar. Porém, conta muito a forma generosa como se expõe, flirtando com a câmara enquanto esta, num longo adeus a Soledad Miranda, vagueia persistente pelo seu corpo, até ao limite dos vaginal zoom, característicos de Franco. Ainda assim, a grande personagem desta história é a Ilha da Madeira que - esquivando-se da imagem comum de bilhete postal -, com a ajuda preciosa da música de Daniel J. White, oferece a  melancolia das colinas, florestas e nevoeiro como a atmosfera e o cenário irreais para refúgio e elemento místico da Condessa Irina Karnstein.

Continuando a política de distribuição de clássicos do terror erótico europeu, a Kino Lorber, através da subsidiaria Redemption Films, tomou a iniciativa feliz de reunir em Blu-ray e DVD as duas versões mencionadas. À versão convencional deu o nome de Erotikill e à mais erótica o de Female Vampire. Erotikill tem apenas um áudio em inglês, enquanto em Female Vampire pode-se optar pelos áudios em francês e inglês, para além da legendagem em inglês. Os áudios em inglês são incrivelmente amadores, pelo que sempre que houver outras opções devem ser essas as escolhas. Ainda que não tenha havido grande cuidado na limpeza do material original, as cores apresentam-se adequadas e as imagens com uma melhor definição que nas edições mais antigas. Trailers e entrevistas completam a edição. Em Destiny in Soft Focus, Jess Franco fala de La comtesse noire e da sua relação com Lina Romay, enquanto Words for Lina é um tributo à actriz por parte do crítico, e também actor no filme, Jean-Pierre Bouyxou. Relativamente às duas versões incluídas nesta edição, o divulgador Robert Monell assinala que Erotikill é prosa enquanto Female Vampire é poesia. Uma não anulando a outra, razão suficiente para espreitar ambas as versões.
















La comtesse noire (Female Vampire, Jess Franco, 1973) 



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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Christina, princesse de l'érotisme: posters


Este material é fruto de um trabalho de pesquisa e selecção da responsabilidade da página The astounding Dr. Wollmen in the charming planet of the secret wonders.


Christina, princesse de l'érotisme (A Virgin Among the Living Dead, Jess Franco, 1971)




País de origem: França
Autor: Constantin Belinsky

País de origem: França
Autor: Desconhecido





País de origem: Alemanha
Autor: desconhecido

País de origem: Itália
Autor: desconhecido



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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A Virgin Among the Living Dead por Jean Rollin


Entre as mutilações mais famosas dos filmes de Jess Franco, constam os inserts realizados por Jean Rollin para Christina, princesse de l'érotisme (1971).

Na década de 1980, a popularidade dos filmes de zombies, que existiam sem caracterização e de forma abstracta no material original mas que precisavam de ser enfatizados, vem apelar para uma nova remontagem de Christina, princesse de l'érotisme. Com Le lac des morts vivants (Zombie Lake, 1981), Jean Rollin já tinha realizado um argumento de Jess Franco. Inicialmente, estava previsto que Franco assumiria a direcção e Rollin, insatisfeito com o resultado final, acabaria por não assumir a paternidade do projecto. Para Christina, princesse de l'érotisme, os produtores pediram que Rollin filmasse uma nova cena com zombies, em que o próprio realizador participa como actor, como parte de um grupo de mortos que sai da terra para aterrorizar a protagonista. Bem construida e muito divertida, se vista isoladamente, com o cabelo da actriz que substitui Christina von Blanc a tapar-lhe a cara para não ser reconhecida, mas que perde pertinência quando usada como insert no filme de Franco. Esta nova versão ficaria conhecida por Une vierge chez les morts vivants ou A Virgin Among the Living Dead, conforme o mercado. Para um lançamento em VHS, a Wizard Video realizou um óptimo trailer (se esquecermos tudo o que sabemos sobre o material original), composto pelas imagens de Jess Franco e a música de Bruno Nicolai, relativos aos créditos originais, e os inserts de Jean Rollin (ver aqui o trailer, descoberto pelo nosso parceiro My Two Thousand Movies). A proposta dos distribuidores aponta A Virgin Among the Living Dead como o filme que Christina, princesse de l'érotisme, claramente, não é.

O cut original de Christina, princesse de l'érotisme, com setenta e nove minutos e sem grande parte dos cortes e inserts, continua a ser a única versão que Jess Franco considera sua e um dos seus títulos favoritos (mais aqui).



Inserts de Jean Rollin para Christina, princesse de l'érotisme (Jess Franco, 1971)



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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Christina, princesse de l'érotisme (A Virgin Among the Living Dead)




















Christina, princesse de l'érotisme (A Virgin Among the Living Dead, Jess Franco, 1971)




La nuit des étoiles filantes (A noite das estrelas cadentes, em tradução livre) foi o nome que Jess Franco atribuiu a um projecto rodado em Portugal, nos jardins e palácios da zona de Sintra. Se tivermos em conta que o enredo anda em volta de uma mulher em luta com os fantasmas da morte do pai e que o acidente de automóvel que vitimou Soledad Miranda ocorreu na costa do Estoril, pouco tempo antes, a alguns quilómetros de Sintra, poderemos especular sobre as ressonâncias que são criadas para a leitura do filme. Apesar do que é apontado por algumas fontes, não é certo que nos planos iniciais, captados a partir de um veículo que circula pela costa, Jess Franco revisite o local do acidente de Miranda pois uma placa de sinalização aponta para uma localidade no sul de Espanha, junto ao Mar Menor. O facto de Jess Franco ter-se refugiado no trabalho como reacção à morte da musa já parece ser uma evidência, uma vez que coincide com o inicio de um ritmo intenso de trabalho em que chega a realizar vários títulos por ano, alguns ao mesmo tempo, contribuindo também como actor, argumentista, compositor, editor, cameraman ou produtor. Este novo começo em Portugal não se trata de uma simples encomenda de um produtor, com os constrangimentos habituais, nem de uma reutilização das personagens e das histórias anteriores, mas sim de um projecto pessoal em que são os delírios e a imaginação selvagem de Franco que vêm à tona, embalados numa abordagem erótica que fosse de encontro às expectativas do público e ao retorno que lhe permitisse continuar a financiar, ainda que parcialmente, os filmes.

A partir de Londres, Christina (Christina von Blanc) viaja para uma localização indefinida, para receber o testamento do pai (Paul Muller) que morrera e nunca conhecera. Por entre anjos e demónios, na mansão secular onde se instala, convive com os peculiares familiares e outros habitantes (Howard Vernon, Rosa Palomar, Britt Nichols e Jess Franco) que têm o corpo gelado mas não parecem mortos e é aconselhada por uma mulher cega (Linda Hastreiter) a fugir e não se deixar contaminar pelo ambiente de morte. As noites são passadas com pesadelos e aparições do pai que a obrigam a conhecer o lado secreto e negro que rodeia a família. Os tentadores símbolos fálicos são rejeitados e vistos como ameaça à sua inocência, imagem de uma suposta virgindade. Com a chegada de um viajante do mundo civilizado a um local marcado pela tradição e folclore locais, o inicio de Christina, princesse de l'érotisme (1971), o novo nome escolhido pelos distribuidores, remete para uma situação clássica do cinema e literatura de terror, que bem poderia ser Dracula de Bram Stoker. Porém, o destino de Christina não é o castelo de Dracula, mas sim o Palácio de Monserrate, que a população local diz estar desabitado. O restante material é organizado em torno de planos sucessivos de Christina, na cama, a dormir e a acordar aterrorizada perante vozes que a chamam e pesadelos que nunca vemos. Do mesmo modo, os habitantes de Monserrate são visíveis para ela e a população local garante que não existem. O que também leva o espectador a desconfiar do que vê: se, afinal, não se trata de um longo sonho de  Christina, em que apenas os seus planos na cama, como que a convalescer, marcam o real. Indicador disso é uma das cenas finais, quando Christina acorda febril no hospital psiquiátrico, que não é mais que a pousada onde dorme na primeira noite, antes de se dirigir para Monserrate, e a médica (Nicole Guettard, casada com Franco) que a monitoriza é a estranha mulher de bata branca que conhecera nessa ocasião. Num filme carregado de simbolismo, sublinhado pela variada e eficaz partitura de Bruno Nicolai, bastaria reter a última cena, e a mais bela, em que Christina aceita a morte de modo a redimir os familiares, sendo conduzida pela Rainha da Noite (Anne Libert), enquanto desaparecem no lago de nenúfares. Entre o elenco, temos a assinalar a presença de Britt Nichols, nascida María do Carmo Ressurreição de Deus, em 1950, na Guarda. Esta sua ligação a Portugal é quase desconhecida, apesar de ter sido Miss Portugal e ter trabalhado com Vasco Morgado. Teve um papel de relevo em vários filmes de Jess Franco até casar com o argentino Héctor Yazalde, goleador do Sporting Clube de Portugal. O ponto final na sua carreira no cinema, imposto pelo marido, foi a recusa em participar em Che? (1972) de Roman Polanski, convite que lhe poderia ter sido dirigido por algumas parecenças com a malograda Sharon Tate. Britt Nichols adoptou outro nome e, no presente, vive na Argentina onde é uma figura pública que não quer estabelecer ligações entre a vida actual e o cinema de Jess Franco.

Christina, princesse de l'érotisme é um dos filmes de Jess Franco mais mutilados pelos distribuidores. O primeiro lançamento não teve grande sucesso, coincidindo com a invasão do cinema mainstream pelo erotismo. Aos distribuidores importava ir de encontro à crescente curiosidade da sociedade por matérias relacionadas com o sexo, com um mínimo de danos provocados pela censura. O filme tinha cenas de nudez, nomeadamente nos sonhos de Christina, que os produtores não acharam suficientes. Perante a indisponibilidade de Jess Franco, a Eurociné contratou um tarefeiro inexperiente, Pierre Quérut, para dirigir novas cenas que pudessem acentuar o conteúdo erótico. Numa dessas cenas, com o mesmo clima surreal do resto do filme mas vulgar na forma como é filmada, Alice Arno é uma rainha sem qualquer ligação com a restante narrativa, envergando apenas uma máscara e uma capa, que acompanha quatro casais por um jardim (sem a exuberância de Sintra e mais adequado para um chalet suburbano francês), enquanto lhes ordena para copularem em diferentes posições, por cima da relva. A cena termina com os quatro homens a envolverem-se com a rainha. Na década de 1980, a popularidade dos filmes de zombies, que existiam sem caracterização e de forma abstracta no material original mas que precisavam de ser enfatizados, vem apelar para uma nova remontagem. Com Le lac des morts vivants (Zombie Lake, 1981), Jean Rollin já tinha realizado um argumento de Jess Franco. Inicialmente, estava previsto que Franco assumiria a direcção e Rollin, insatisfeito com o resultado final, não assumiria a paternidade do projecto. Para Christina, princesse de l'érotisme, os produtores pediram a Rollin para filmar uma nova cena com zombies, em que o próprio realizador participa como actor, como parte de um grupo de mortos que sai da terra para aterrorizar a pobre Christina. Bem construida e muito divertida, quando vista isoladamente, com o cabelo da actriz que substitui Christina von Blanc a tapar-lhe a cara para não ser reconhecida, mas que perde qualquer pertinência quando colocada como insert no filme de Franco. Esta nova versão ficaria conhecida por Une vierge chez les morts vivants (A Virgin Among the Living Dead). O cut original de Christina, princesse de l'érotisme,  com setenta e nove minutos e sem os cortes e os inserts referidos, continua a ser a única versão que Jess Franco considera sua e um dos seus títulos favoritos.

Em Agosto, a Kino Lorber/Redemption Films lançou A Virgin Among the Living Dead em formato DVD e Blu-ray, que inclui como extra a edição original de Franco para Christina, Princess of Eroticism (Christina, princesse de l'érotisme). Tem áudios em inglês e francês  (aconselhável) e legendagem em inglês. Na imagem estão presentes riscos e sujidade que apontam para deficientes condições de preservação do material de onde foi feita a transferência ou, ainda, falta de limpeza desse mesmo material, algo a que nos habituamos facilmente perante a excepcional luminosidade, a vivacidade das cores e a qualidade do contraste. Entre o restante material que acompanha a edição, destaque para os documentários: Jess! What Are You Doing Now?, homenagem de convidados e amigos, que vale sobretudo pelo caracter emotivo que manifestam os que viveram de perto com a pessoa e a obra; The Three Faces of Christina, em torno das várias versões do filme; e Mysterious Dreams, uma das ultimas entrevistas de Jess Franco em que ressalta a permissividade que sentiu em Portugal, afirmando que as autoridades portuguesas foram sempre cooperantes nas filmagens ao enviar agentes para proteger a equipa, inclusive quando se tratavam de cenas eróticas em locais  públicos. É com surpresa que recebemos estas afirmações, tendo em conta o período politico português em que isto aconteceu, na fase final do Estado Novo. Nos extras, constam ainda os inserts eróticos referidos - a cena de zombies está incluída na presente versão de A Virgin Among the Living Dead -, mas o elemento mais precioso e que por si só torna obrigatória a aquisição é o comentário de Tim Lucas - editor da revista Video Watchdog e um dos autores de Obssession - The Films of Jess Franco - para a versão Christina, princesse de l'érotisme. Ao apontar relações e singularidades dentro da obra do realizador e da produção do cinema de terror europeu da época, assinala detalhes importantes que um simples visionamento não revela e obriga a reavaliar Christina, princesse de l'érotisme como um dos exemplos maiores da originalidade e imaginação fervilhante de Jess Franco.


A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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Vampyros Lesbos: posters e lobby cards


Este material é fruto de um trabalho de pesquisa e selecção da responsabilidade da página The astounding Dr. Wollmen in the charming planet of the secret wonders.


Vampyros Lesbos (Las vampiras, Jess Franco, 1970)



País de origem: Espanha
Autor: JANO (Francisco Fernández Zarza)

País de origem: Alemanha
Autor: desconhecido





Lobby card mexicano

Lobby card alemão



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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Evocação da Crítica






















The Conjuring (A Evocação, James Wan, 2013)




James Wan promete mais do que realmente oferece. Agora que decidiu terminar a carreira no cinema de terror para se dedicar a outras aventuras mais estimulantes, incluindo essa série marcante, pelo menos em termos de longevidade, que dá pelo nome de Fast & Furious -  está a filmar o sétimo capítulo -, relembramos o que foi escrito sobre o recente The Conjuring (A Evocação, 2013).


James Wan vise un simple principe d’efficacité et réactive, avec une vraie candeur, tous les codes du bis seventies sans jamais céder à l’ironie ou à la distance postmoderne, filmant chaque claquement de porte, chaque sursaut et miroir réfléchissant comme pour la première fois. Il trouve surtout, dans le dénuement quasi conceptuel qu’épouse le récit de Conjuring, l’écrin idéal d’un exercice de style virtuose sur le motif de la peur, dont il est l’un des seuls, aujourd’hui, à maîtriser les mécanismes. Si l’effroi est une question de rythme, de précision, en somme de musicalité, disons alors qu’il a trouvé chez James Wan son meilleur soliste du moment.
Romain Blondeau em Les Inrockuptibles

Conjuring revient au contraire à la sève nostalgique de l'épouvant «paranormale» des années 70, remontant les temps dans une variation maniériste autour de Amityville ou de Shining ... La beauté de la reconstitution des annés 70 est impressionnant, tout comme la mise en place d'une atmosphère familiale tour à tour chaleureuse et glaçante. Mallheureusement, Wan choisit trop ouvertement de céder au ludisme à mi-parcours, et le film s'écrase lors d'une dernière partie digne d'une mauvaise série Z.
Vincent Malausa em Cahiers du Cinéma

O cineasta confirma o seu estatuto de especialista em viagens no comboio-fantasma com esta Evocação que segue na linhagem de casas assombradas do seu predecessor, a meio caminho entre o Poltergeist de Spielberg e Amityville, aqui inspirando-se num caso verídico e em personagens que existiram na realidade. O que interessa a Wan, na verdade, é antes o modo como estes desafios sobrenaturais celebram a força do núcleo familiar contra uma ameaça externa, o que lhe dá também uma dimensão de filme dos anos-1980 ... Se a maioria do cinema que por aí se vê - e não só de terror... - tivesse a eficácia e inteligência deste filme, talvez as coisas não andassem tão por baixo.
Jorge Mourinha em Público

Wan’s film pays homage to the genre’s great era, the 1970s.  Set in 1971, The Conjuring is haunted, not only by the demon tormenting the Perron family in their rural Rhode Island home, but by the specter of an era that disturbingly resembles our own ... The moral of the story ultimately rests on a conservative affirmation of the power of religion and of family.  The Warrens marshal the same Christian forces that defeated the demon haunting Linda Blair in The Exorcist (1973), enhanced by the powerful maternal feelings of the demon’s host, Carolyn Perron.
Jed Mayer em Indiewire

Tout y est, des portes qui grincent aux apparitions furtives de silhouettes sans oublier la farandole de stigmates affligeant les personnages et le fameux effet «coucou, c’est Satan» pouvant conduire les spectateurs sensibles aux urgences les plus proches. A découvrir le cahier des charges, le film semble une nomenclature des clichés les plus éculés, mais l’expérimenté sens du tempo du réalisateur et le sérieux avec lequel il agence le tout font de Conjuring un film «train fantôme» tout à fait conforme à ce qu’on pouvait en attendre.
Bruno Icher em Libération

The Conjuring, elogiado pela maioria da crítica norte-americana, parecia ser o filme que vinha elevar este “novo primitivo” do cinema de horror a um outro patamar de excelência. Infelizmente, o que encontramos neste filme é mais a sedimentação de truques e mecânicas de horror do que a depuração de uma linguagem. Não é só a repetição estrutural que causa desconfiança – afinal, temos aqui de novo um filme de assombrações protagonizado por Patrick Wilson… – mas a forma como se reencenam as brincadeiras diabólicas, em que, por exemplo, o arrepiante hide and seek, perdão, and clap se afirma como uma derivação mais do que uma evolução do que viramos antes.
Luís Mendonça em À pala de Walsh


Para acompanhar o lançamento de The Conjuring, no Le Nouvel Observateur, Vincent Malausa elaborou um top de filmes sobre casas assombradas (aqui). Entre as escolhas, para além dos mais óbvios, estão filmes de Pupi Avati, Tony Williams, Mario Bava, Antonio Margheriti e Sidney J. Furie. No topo da lista está o fabuloso The Haunting (A Casa Maldita, 1963) de Robert Wise.


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Vampyros Lesbos (Las vampiras)

















Vampyros Lesbos (Las vampiras, Jess Franco, 1970)




Durante a primeira metade da década de 1970, Jess Franco realizou alguns dos seus filmes mais populares. Entre eles encontra-se Vampyros Lesbos (Las vampiras, 1970), exemplar de uma forma de mise en scène que o realizador tinha vindo a experimentar ao longo dos anos e indicia o seu trabalho futuro. As performances eróticas que antes aconteciam em clubes nocturnos e que apareciam pontualmente na primeira década da carreira, parecem agora contaminar por inteiro os filmes. Com a narrativa reduzida ao mínimo, a música é o mote para uma sucessão de longos actos performativos que os actores dirigem em frente à câmara, à qual cabe o papel de activar o olhar do espectador, ora mostrando, ora escondendo, numa sucessão de zooms e de manipulações do foco. O resultado são atmosferas em fuga para a abstracção, que tanto seduzem os fãs, como afastam irremediavelmente os detractores. Esta nova forma de organização dos filmes acontece com a chegada de Soledad Miranda e, mais tarde, de Rosa María Almirall Martínez (Lina Romay) que não só tomam o lugar de Estella Blain, Janine Reynaud e Maria Rohm, como aceitam o olhar fascinado de Franco, com uma disponibilidade sem precedentes. É o olhar obsessivo de Franco pelos seus corpos que se tornará o motor de cada filme.

Vampyros Lesbos é a participação mais famosa de Soledad Miranda no cinema, onde interpreta uma herdeira do conde Dracula, com uma predilecção por sangue de mulheres. Vampiros e amores entre mulheres não eram temas novos no cinema. Em 1936, ao camuflar lesbianismo com vampirismo, a Universal conseguiu que Dracula's Daughter (Lambert Hillyer, 1936) não ficasse enredado em processos levantados pela censura. Segundo Vito Russo, historiador especializado em estudos queer e autor do livro The Celluloid Closet (1981), o estúdio chegou a promover o filme com a slogan: Save the women of London from Dracula's Daughter! No entanto, o autor lembra a problemática que se levanta pois, na combinação de ambos os temas, a fraqueza predatória é apresentada como a essência da homossexualidade. A personagem Carmilla, criada em 1872 por Joseph Thomas Sheridan Le Fanu, para a novela com o mesmo nome, tornar-se-ia numa grande influência para os filmes que sugerem a temática. Ainda que com diferentes doses de subtileza, Vampyr (1932) de Carl-Theodor Dreyer e ... Et mourir de plaisir (Blood and Roses, 1960) de Roger Vadim vão inspirar-se a Carmilla. Na viragem da década de 1960, também o francês Jean Rollin e a produtora inglesa Hammer entram seguros neste território, respondendo ao esgotamento dos filmes protagonizados por Dracula e à mudança de costumes no que diz respeito à utilização do sexo e da violência no panorama audiovisual. Na Hammer, esta nova forma de abordagem ao vampirismo é mais evidente na Karnstein Trilogy, numa referência directa a Carmilla Karnstein e que inclui The Vampire Lovers (Roy Ward Baker, 1970), Lust for a Vampire (Jimmy Sangster, 1971) e Twins of Evil (John Hough, 1971).

Jess Franco não apreciava os filmes da Hammer, considerando-os mal produzidos e filmados e cópias a cores pouco inspiradas dos modelos da Universal. O que não o impediu de aceitar Christopher Lee, um dos símbolos do estúdio inglês, para protagonizar o falhado Count Dracula (El Conde Drácula, 1969), adaptação fiel da obra Dracula de Bram Stoker. Talvez Christopher Lee seja um dos maiores defeitos do filme, não pela qualidade da representação, mas pela inevitável lembrança e comparação, a que nos obriga, com o superior Dracula (1958), que Terence Fisher dirigiu para a Hammer e em que o actor vive a mesma história e personagem. Em Vampyros Lesbos, a perspectiva inventiva de Franco avança com desafios bem mais estimulantes, através de uma forma narrativa não linear que evita a criação de medo ou suspense e passa ao lado das convenções do género. Os vampiros não assumem qualquer incompatibilidade com a luz solar, os reflexos nos espelhos ou os símbolos religiosos. Nem há qualquer sinal dos famosos dentes pontiagudos. Tendo sido filmado em Alicante, Barcelona, Istambul e Berlim, as florestas e o gótico da Hammer dão lugar a paisagens ensolaradas, casas de recorte modernista, aves exóticas, escorpiões e borboletas. À volta, o mar, mais uma vez, e a música inebriante de Manfred Hübler e Siegfried Schwab, que Quentin Tarantino homenagearia na banda sonora de Jackie Brown (1997). O ar impenetrável de Soledad Miranda no papel da Condessa Nadine Korody, com os olhos escuros e a figura pálida, são a força e o sucesso público do filme, o que levou Artur Brauner, da produtora alemã Telecine, a propor-lhe um contrato para vários filmes, pouco antes de a actriz morrer num acidente trágico em Portugal. Caberia à senhora que se seguiu, Lina Romay, evocar a memória de Nadine Korody, já em terreno hardcore, em La comtesse noire (Female Vampire, 1973) e Die Marquise von Sade (Doriana Gray, 1976).

As companhias norte-americanas Image Entertainment e Synapse Films lançaram Vampyros Lesbos em DVD, no formato widescreen, em 1999 e 2004, respectivamente. Em ambas as edições é utilizado um áudio alemão, com a possibilidade de escolha de legendagem em inglês, embora a Synapse Films deixe pequenas secções de diálogo sem tradução. Em termos de tratamento de cor, a Image Entertainment conseguiu uma transferência que acompanha melhor as cores originais trabalhadas por Jess Franco. Nos extras, ambas têm o habitual trailer, mas a Synapse Films acrescenta notas valiosas do incansável Tim Lucas. A espanhola Divisa optou por lançar Las vampiras, numa versão de Vampyros Lesbos com áudio em castelhano ou japonês e legendagem em castelhano. Trata-se de uma versão feita na década de 1970 para o mercado espanhol, amputada de cenas problemáticas para a censura. Entre elas está a famosa performance erótica que abre Vampyros Lesbos, com Soledad Miranda e uma manequim viva. A banda sonora de Manfred Hübler e Siegfried Schwab, outra das marcas importantes da versão alemã, é eliminada ou substituída, em algumas cenas, por música da autoria de Jess Franco.



Vampyros Lesbos (Las vampiras, Jess Franco, 1970)



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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