Miss Muerte: posters e lobby cards


Este material é fruto de um trabalho de pesquisa e selecção da responsabilidade da página The astounding Dr. Wollmen in the charming planet of the secret wonders.


Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z, Jess Franco, 1965)


País de origem: Espanha
Autor: JANO (Francisco Fernández Zarza)

País de origem: Espanha
Autor: JANO (Francisco Fernández Zarza)





País de origem: França
Autor: desconhecido

País de origem: França
Autor: desconhecido




País de origem: Estados Unidos da América
Autor: desconhecido






Lobby card norte-americano

Lobby card britânico




Lobby card mexicano




A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

 //

Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z)

















Miss Muerte (Jess Franco, 1965)



Se Gritos en la noche (1961) parece agarrado ao passado, Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z, 1965) respira o ar do tempo, influenciado pelas novas correntes que sopravam da vizinha França. Também, é de lá que vem o argumentista Jean-Claude Carrière, colaborador habitual de Luis Buñuel, para desenvolver um enredo que aproveita vagamente a personagem Orlof, citando-o num diálogo, e põe a componente cientifica como mero fundo para uma trágica história de vingança. O argumento tem algumas semelhanças com a novela The Bride Wore Black, de Cornell Woolrich, que em 1967 François Truffaut adaptaria para o seu clássico La Mariée était en noir. David Khune, o autor da novela que é referida como inspiração e que é mencionado nos créditos iniciais de Miss Muerte, é apenas um dos pseudónimos do realizador Jess Franco. No papel da sua vida e numa das personagens memoráveis do cinema de Franco, a malograda Estella Blain - suicidar-se-ia na década de 1980 - é Miss Muerte, uma bailarina que recebe um tratamento científico que a metamorfoseia numa assassina eficaz, para ser usada numa operação de vingança pela morte de um investigador. Na composição do mito conta o adereço em forma de aranha, que se enrola ao seu corpo, a partir da zona vaginal, e as unhas mortíferas. Howard Vernon, o Dr. Orlof de Gritos en la noche, ainda que num pequeno papel, como um dos cientistas a eliminar, ganha um dos melhores momentos, com o assassinato no comboio.

Como o penúltimo filme a preto e branco de Franco - o último seria Cartes sur table (1966), a segunda colaboração com Jean-Claude Carrière -, Miss Muerte é um formato comedido na abordagem ao conteúdo sexual, apostando mais na sugestão do que na exibição. Os apelos à libido devem muito às actuações de Miss Muerte no clube nocturno. É numa dessas cenas que o filme está sedimentado. Num jogo sexualmente provocador e que se adivinha letal, quando a bailarina põe a mascara da morte, a personagem de Estella Blain contracena com um falso manequim masculino. Os assassinatos a que será obrigada serão encenados como se fossem mais uma performance de Miss Muerte; como se nunca tivéssemos abandonado o palco do clube. Para completar o conjunto, a combinação do preto e branco com a exploração da iluminação, em aproximações chiaroscuro, cria focos de luz que surgem como unidade dramática e consolidam o estado onírico que é proposto ao espectador.


Miss Muerte (Jess Franco, 1965)



Antes de Miss Muerte, Jess Franco realizou El secreto del Dr. Orloff (1964), outro herdeiro de temas e personagens de Gritos en la noche. O gótico ficara para trás e o Dr Orloff (agora com mais um F) é trazido para a actualidade, numa história tocante em que uma mulher conhece pela primeira vez o pai, enquanto máquina de matar, sob a influência de um cientista. A proximidade no lançamento dos dois filmes talvez tenha obscurecido El secreto del Dr. Orloff. Indevidamente, pois, mesmo que por momentos  se afigure como antecâmara para a sofisticação de Miss Muerte, trata-se de um óptimo exercício de série B, exemplar no sentido de economia. Anos mais tarde, agora a cores, Franco remontaria a história de Miss Muerte para Sie tötete in Ekstase (She Killed in Ecstasy, 1970), um dos últimos filmes da musa Soledad Miranda e que, premonitoriamente, anunciaria a sua morte. De destacar ainda que, ao contrário da Hammer que mantém Dracula fora da contemporaneidade, até 1972 - com duas entradas na "swinging London", Dracula A.D. 1972 (Alan Gibson, 1972) e The Satanic Rites of Dracula (Alan Gibson, 1973) -, Jess Franco cedo recorre a ambientes modernos para situar a sua personagem mais popular. Depois de Miss Muerte, Franco inicia um periodo de colaboração com Orson Welles. O resultado é La isla del Tesoro (Jess Franco, 1965), inacabado e com argumento e actuação de Welles, e Campanadas a medianoche (Falstaff - Chimes at Midnight, Orson Welles, 1965), como director da segunda equipa de filmagens.  

A edição em DVD que sugerimos pertence à norte-americana Mondo Macabro, pois contém uma transferência para DVD, a partir do negativo original, no formato 16-9, considerada exemplar. Há a possibilidade de seleccionar o audio inglês ou francês e adicionar legendas em inglês. Aconselhamos a opção em francês, pois como já tivemos a oportunidade de referir, por regra, as dobragens em inglês são de qualidade inferior. Entre os extras, contam-se um trailer, stills, posters raros e o documentário The Diabolical Mr Franco, cheio de entrevistas para iniciados no seu cinema. Em resumo, uma edição histórica em formato digital, para um filme fundamental da primeira fase da obra de Jess Franco.





















Miss Muerte (Jess Franco, 1965)



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

 //

Gritos en la noche: posters e lobby cards


Este material é fruto de um trabalho de pesquisa e selecção da responsabilidade da página
The astounding Dr. Wollmen in the charming planet of the secret wonders.


Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof, Jess Franco, 1961)


País de origem: Espanha
Autor: JANO (Francisco Fernández Zarza)

País de origem: Espanha
Autor: desconhecido



País de origem: Argentina
Autor: desconhecido

País de origem: França
Autor: desconhecido



País de origem: França
Autor: Covillault

País de origem: França
Autor: desconhecido



País de origem: Itália
Autor: MOS (Mario De Berardinis)

País de origem: Itália
Autor: desconhecido



País de origem: Reino Unido
Autor: desconhecido

País de origem: Bélgica
Autor: desconhecido



Lobby card francês

Lobby card britânico



Lobby card norte-americano

Lobby card mexicano




A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.


 //

Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof)





















Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof, Jess Franco, 1961)



Depois de ver The Brides of Dracula (Terence Fisher, 1960) da Hammer, Jess Franco propõe aos produtores franceses Marius e Daniel Lesoeur do estúdio Eurociné a realização de um filme de terror, que sob a máscara da fantasia pudesse testar os limites da censura. O resultado é Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof, 1961), para o qual também escreveu o argumento. Nele, o Dr. Orlof (Howard Vernon), com a ajuda do assistente cego Morpho (Ricardo Valle), rapta jovens cantoras, de quem retira a pele para restaurar a face desfigurada da filha Melissa (Diana Lorys). Se em Gritos en la noche, é notória a influência dos filmes de monstros da Universal, o filme não se limita a olhar para o passado, introduzindo uma nova abordagem da sexualidade e da perversidade. É famosa a cena em que Morpho, destapa e apalpa os seios de um duplo da actriz principal (Diana Lorys a interpretar dois papéis), quando a tenta segurar, que apenas está presente numa versão destinada ao mercado francês, considerado mais permissivo. Igualmente inesquecível é a crueldade de Morpho que, à dentada, imobiliza as vítimas. A banda sonora vanguardista de Jose Pagan e Antonio Ramirez Angel e a fotografia de Godofredo Pacheco devedora do expressionismo alemão, completam o clima de mistério e a atmosfera onírica, lançando os pilares sólidos do futuro cinema de Franco.

























Les yeux sans visage (Georges Franju, 1960)



The Dark Eyes Of London (1924) de Edgar Wallace e Les yeux sans visage (1960) de Georges Franju são obras com pontos relevantes em comum com Gritos en la noche. Na novela de Wallace, um médico executa crimes com a ajuda de um cego. Em Les yeux sans visage, Franju conta a história de um médico que recorre à pele de jovens para recuperar a face da filha. O Dr. Orlof seria revisitado ou sugerido em várias obras posteriores de Franco: El secreto del Dr. Orloff (1964), Miss Muerte (1965), Los ojos siniestros del doctor Orloff (1973) e El siniestro doctor Orloff (1982). Na década de 1980, com Faceless (Les prédateurs de la nuit, 1987), Franco realiza uma actualização luxuosa da história com a ajuda de um elenco internacional, incluindo a fabulosa Brigitte Lahaie, mas as personagens adquirem outros nomes. O Dr. Orloff é uma personagem bastante secundária, interpretada pelo mesmo Howard Vernon. A irmã do médico tem o nome de Ingrid e Melissa passa a chamar-se uma das vítimas. O nome Morpho seria utilizado em outras obras, mesmo que desligadas de Orlof e quase sempre como assistente da personagem principal. Veja-se o caso de Vampyros Lesbos (1970) e La comtesse noire (Female Vampire, 1973), em que é o colaborador da vampira (Soledad Miranda e Lina Romay, respectivamente). Em 1964, Gritos en la noche seria lançado nos Estados Unidos, com o nome de The Awful Dr. Orlof e em conjunto com L'Orribile segreto del Dr. Hichcock (1962) de Riccardo Freda, mas foi um insucesso critico e Jess Franco ganhou o título de Jess The Awful Dr. Orlof Franco.




















Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof, Jess Franco, 1961)



No que diz respeito à disponibilidade de Gritos en la noche no mercado, existem várias ofertas - com destaque para a da Ragia Films, que inclui as versões espanhola (90 min) e internacional (80 min) - mas a nossa preferência vai para uma próxima edição que se espera ser a versão definitiva da obra. Em Agosto, a Redemption lança-a em DVD e Blu-ray numa nova masterização em HD a partir de elementos dos arquivos da Eurociné. A versão a usar será a francesa original, com a possibilidade de escolha dos subtítulos ou audio em inglês. Os extras incluem uma das últimas entrevistas filmadas de Jess Franco, dirigida por David Gregory, um novo comentário do indispensável Tim Lucas (director da revista Video Watchdog) e filmagens recentes com as opiniões de amigos e colaboradores de Franco.

A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there//

Jess Franco em 5' 27''


Como complemento à introdução ao cinema de Jess Franco, que acabámos de apresentar, deixamos esta bela homenagem em forma de clipe assinada por Stéphane du Mesnildot, colaborador da revista Cahiers du Cinéma e autor de Jess Franco: Énergies du fantasme, para o canal de televisão ARTE. Contém imagens e bandas sonoras de muitos dos filmes que fazem parte deste ciclo.



Hommage à Jess Franco (Stéphane du Mesnildot, 2013)



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there//

O Cinema de Jess Franco



































 Estella Blain em Miss Muerte (Jess Franco, 1965)



O desaparecimento de Jess Franco, em Abril deste ano, passou quase despercebido nos meios de comunicação social de todo o mundo e as menções feitas insistiram quase sempre na redundância caricatural. É verdade que nas cerca de duas centenas de produções em que participou como realizador, actor, argumentista ou compositor, há muitas que se esquecem com facilidade, mas isso não pode desconsiderar um universo autoral singular que vai para além da lista de curiosidades da história do cinema da segunda metade do século XX. Houve tempos em que a sua abordagem à matéria filmica seduzia aventureiros, como Fritz Lang e Orson Welles. Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof, 1961), Necronomicon - Geträumte Sünden (Succubus, 1967), Paroxismus (Venus in Furs, 1968), Eugénie (1970), Vampyros Lesbos (1970), Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, 1974) ou Gemidos de placer (1982) apontam para um autor desafiador, que circula com o mesmo à vontade entre o mainstream, o softcore e o hardcore. O terror, a espionagem, a comédia, o noir, o drama sentimental, o musical ou mesmo o género "women in prison", que ajudou a inventar. Em busca de liberdade criativa e para escapar às malhas da censura, mudou de país e escondeu-se debaixo de pseudónimos, muitos deles roubados a músicos de jazz, estilo musical que amava e que usou na banda sonora de muitos filmes.

Jess Franco nasceu com o nome de Jesús Franco Manera, a 12 de Maio de 1930, em Madrid, no seio de uma família de intelectuais e músicos. O interesse pelo cinema, levou-o a frequentar o Instituto de Investigaciones y Experiencias Cinematográficas de Madrid, de onde foi expulso durante o segundo ano de frequência. As razões da expulsão não são claras, mas mais tarde referiu que o facto de ser expulso da escola de cinema resultava num bom método para começar a fazer filmes. Seguiu-se uma passagem pelo Institut des Hautes Études Cinématographiques, em Paris, conjugado com um trabalho de dobragem de filmes franceses para a língua castelhana. Um dos filmes em que coordenou a dobragem foi La môme vert de gris (Poison Ivy, 1953) de Bernard Borderie. Howard Vernon é um dos actores que protagonizam o filme e que mais tarde se tornaria num dos seus actores fetiche. Presume-se que este tenha sido o primeiro contacto que o futuro realizador teria com o trabalho do actor. Em 1954 regressa a Madrid, para se dedicar à direcção de produção ou assistência de realização com Juan Antonio Bardem, León Klimovsky, Luis García Berlanga e Pedro Lazaga, entre outros. Para Joaquín Luis Romero Marchent foi assistente de realização e co-escreveu o argumento de El Coyote (1955) - um dos primeiros westerns europeus, ao qual se atribui influência na trilogia dos dólares de Sergio Leone - e de La Justicia del Coyote (1956). Em 1958, deu assistência à segunda equipa de filmagens de uma grande produção de Hollywood, que estava a ser filmada em Espanha: o épico religioso Solomon and Sheba (1959) dirigido por King Vidor e com Yul Brynner, Gina Lollobrigida e George Sanders. Antes de se estrear na direcção de longas metragens com Tenemos 18 años (1959), assina um conjunto de documentários que resultam de encomendas ou homenagens. El Árbol de España (1957), El Destierro del Cid (1958) e Estampas guipuzcoanas nº 2: Pío Baroja (1958) estão entre as conhecidas. Tenemos 18 años é uma comédia, com sugestões surrealistas, em torno da adolescencia, para a qual escreveu também o argumento e compôs a música. Segue-se outra comédia Labios Rojos (1960) e dois musicais pouco robustos: La reina del Tabarín (1960) e Vampiresas 1930 (1960).






















Janine Reynaud em Necronomicon - Geträumte Sünden (Jess Franco, 1967)



O ano de 1961 marca o ponto de viragem na carreira, com a entrada em pleno no género do terror. Depois de um visionamento de The Brides of Dracula (Terence Fisher, 1960) da Hammer, propõe aos produtores franceses Marius e Daniel Lesoeur, do estúdio Eurociné, a realização de uma nova obra que, sob a máscara do terror e da fantasia, evitasse contornos políticos problemáticos para a censura espanhola. Franco escreveu o argumento e o resultado foi Gritos en la noche, uma das suas obras mais aclamadas e a primeira que teve distribuição significativa fora de Espanha. Howard Vernon protagoniza, no papel de um médico que, com a ajuda de um assistente cego, recolhe a pele de jovens cantoras para restaurar a beleza da irmã desfigurada. As pinceladas expressionistas, a fabulosa fotografia e a banda sonora  experimental compõem um ambiente onírico que se tornaria uma das marcas do futuro cinema de Franco. A preto e branco, Gritos en la noche olha para o passado, evocando o período áureo dos filmes de monstros da Universal - numa altura em que o estúdio americano findava esta linhagem nobre - e para o futuro, abrindo caminho para novos tons de sexualidade e perversidade. Franco inaugura um processo de trabalho que se tornaria recorrente. São produzidas várias versões, adequadas às imposições das censuras dos países onde seria lançado, e que divergem no tipo de abordagem ao material erótico. Para uma das versões, a actriz principal negou-se a ultrapassar determinados limites na exposição do corpo, pelo que foi substituída por um duplo. No que toca ao Dr. Orlof, não ficaria por aqui e esteve presente ou foi sugerido em outras obras: El secreto del Dr. Orloff (1964), Miss Muerte (1965), Los ojos siniestros del doctor Orloff (1973), El siniestro doctor Orloff (1982) ou Faceless (Les prédateurs de la nuit, 1987). No inspirado Miss Muerte, escrito por Jean-Claude Carrière, colaborador habitual de Luis Buñuel, Estella Blain encarna uma bailarina que, por um tratamento cientifico, é transformada em assassina. Enrolado ao corpo, a partir da zona vaginal, exibe um adereço em forma de aranha, numa das imagens indissociáveis do universo de Franco. Em 1964, Gritos en la noche seria lançado nos Estados Unidos, com o nome de The Awful Dr. Orlof e em conjunto com L'Orribile segreto del Dr. Hichcock (1962) de Riccardo Freda, mas foi um insucesso critico e Jess Franco ganhou o título de Jess The Awful Dr. Orlof Franco.

Com La muerte silba un blues (1962) impressiona Orson Welles que o contacta para ser director da segunda equipa de filmagens de Campanadas a medianoche (Falstaff - Chimes at Midnight, 1965), uma co-produção entre Espanha e Suíça que o realizador americano dirigia na Europa. O produtor Emiliano Piedra bem tentou demover Welles de contratar Franco, chegando-lhe a mostrar  Rififí en la ciudad (1963) como prova de que deveria voltar atrás na decisão. Tal não aconteceu pois Welles ficou bastante satisfeito com a atmosfera do filme. Certamente que algo poderia unir dois marginalizados pelos sistemas de produção, persistentes na procura das condições mais propícias ao controlo do processo criativo. Também Necronomicon - Geträumte Sünden, exibido no Festival de Cinema de Berlim, impressionou Fritz Lang que afirmou ter sido o primeiro filme erótico que teria visto por inteiro, por tratar-se de uma bela peça de cinema. A abertura de Necronomicon dá-se num clube nocturno onde uma performance erótica  - com variações, encontramo-la em muitos dos seus filmes - simula uma cena de tortura e morte, pontuada por música com toques de jazz. Nada o faria adivinhar, mas é mesmo em Lisboa que começamos, entre a decadência dos palácios e das casas senhoriais que, mais para o final, contrastam com o modernismo e a sofisticação de Berlim. Necronomicon talvez seja a obra maior de Franco nesta década, onde se destacam também um conjunto de paródias aos filmes de espionagem, estilo James Bond, mas com orçamentos tão limitados que obrigam a recorrer a soluções verdadeiramente engenhosas. Tratam-se de caleidoscópios pop, transformados em grandes divertimentos, com mulheres vamp destinadas a morrer, agentes trapalhões e alusões à ficção cientifica. Sendo parte deles protagonizados por Eddie Constantine, para além de  Cartes sur table (1966), Residencia para espías (1967) e Bésame monstruo (1967), destaca-se o hilariante Lucky, el intrépido (1967).



















Maria Rohm em Paroxismus (Venus in Furs, Jess Franco, 1968)



A entrada em cena do produtor inglês Allan Towers, traz para o cinema de Franco estrelas respeitadas internacionalmente, entre elas Christopher Lee - Fu-Manchu and the Kiss of Death (1967), Castle of Fu-Manchu (1968), Il trono di fuoco (The Bloody Judge, 1969), Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion (1969), Count Dracula (El Conde Drácula, 1969) ou Operación cocaína (1988) - e Klaus Kinski - Paroxismus, Marquis de Sade: Justine (1968), Count Dracula (El Conde Drácula, 1969) ou Jack the Ripper (1976). São conhecidos os conflitos entre Kinski e os realizadores, mas no caso de Franco consta que as relações de trabalho foram sempre de respeito mútuo. Quanto a Christopher Lee, quando caminhava por Londres, percebeu que Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion era exibido num cinema dedicado a filmes de exploração sexual. Surpreendido, comentou que lhe parecia que, depois de ter abandonado o local das filmagens, toda a gente se tinha despido. Acrescentou que teria sido a única vez que pediu para retirarem o seu nome dos créditos. Exagero, dizemos nós, pois o filme é uma óptima entrada nas adaptações de La Philosophie dans le boudoir de Sade. Franco voltaria aí mais vezes: Eugénie (1970), Plaisir à trois (1973), Cocktail spécial (1978), Eugenie, Historia de una perversión (1980), Historia sexual de O (The Sexual Story of O, 1981) e Tender Flesh (Carne fresca, 1997). Para além dos dois Eugénie mencionados, Paroxismus é outro dos filmes fundamentais desta época. Numa evocação da novela de Leopold von Sacher-Masoch com o mesmo nome, Maria Rohm é uma morta que regressa à vida para dormir com o homem que a desejara e se vingar dos seus assassinos, Klaus Kinski, Dennis Price e Margaret Lee. De Istambul para o Rio de Janeiro: as imagens saturadas de vermelho e azul (até os olhos de Kinski), mortos revelados pelo movimento das águas, louras transformadas em morenas e música hipnótica com interlúdios de jazz são elementos com poder suficiente para seduzir um fã de David Lynch. Também é com Allan Towers que Franco se estreia em filmes ambientados em prisões de mulheres, sujeitas a violência física e sexual extrema, e com grandes doses de lesbianismo - habitualmente nomeados WiP (Women in Prison) films. Não foi ele que criou o género, mas deu uma grande ajuda para o seu estabelecimento, em 1969, com o grande sucesso público de 99 Women e, uns anos depois, com uma série de variantes: Quartier de femmes (Lovers of Devil's Island, 1972), Des diamants pour l'enfer (Women Behind Bars, 1975), Frauengefängnis (Barbed Wire Dolls, 1975), Greta - Haus ohne Männer (Wanda, the Wicked Warden, 1977), Frauen für Zellenblock 9 (Women in Cellblock 9, 1977), Frauen im Liebeslager (Love Camp, 1977) e Sadomania - Hölle der Lust (1980).

Durante a primeira metade da década de 1970, Franco realiza os seus filmes mais populares. Entre eles está Vampyros Lesbos, exemplar de uma forma de mise en scène que o realizador tinha vindo a experimentar ao longo dos anos e indicia o seu trabalho futuro. As performances eróticas que antes aconteciam em clubes nocturnos e que apareciam pontualmente na primeira década da carreira, parecem agora contaminar por inteiro os filmes. Com a narrativa reduzida ao mínimo - surpreendente quando se trata de uma longa metragem -, a música é o mote para uma sucessão de longos actos performativos que os actores dirigem em frente à câmara, à qual cabe o papel de activar o olhar do espectador, ora mostrando, ora escondendo, numa sucessão interminável de zooms e de manipulações do foco. O resultado são atmosferas em fuga para a abstracção, que tanto seduzem os fãs, como afastam irremediavelmente os detractores. O apuramento deste método pode ser encontrado, já em plena década de 1980, no assombroso tour de force Gemidos de placer. Entre o fim de tarde e a madrugada, em cerca de quatro dezenas de planos de forma a induzir uma sensação de tempo real, cinco personagens deambulam por uma casa em repetidos encontros sexuais, sob o desígnio de Sade. Esta nova forma de organização dos filmes tornou-se possível com a ajuda de Soledad Miranda e de Rosa María Almirall Martínez que, não só tomam o lugar de Estella Blain, Janine Reynaud e Maria Rohm, como aceitam o olhar fascinado de Franco, de uma forma sem precedentes. É a declaração obsessiva de Franco pelos seus corpos que se tornará o motor de cada filme.


























Soledad Miranda (e Christopher Lee) em Count Dracula (El Conde Drácula, Jess Franco, 1969)



Nascida em Sevilha, descendente de portugueses, Soledad Miranda vivia na zona de Lisboa, casada com um piloto de automóveis. Para proteger a vida familiar, nos filmes mais ousados adoptou a identidade de Susann Korda. Vampyros Lesbos é sua participação mais famosa no cinema, onde interpreta uma herdeira do conde Dracula, com uma predilecção especial por sangue de mulheres. Vampiros e amores entre mulheres eram temas explorados pela produtora inglesa Hammer nos filmes da Karnstein Trilogy, inspirados na personagem Carmilla, criada em 1872 por Joseph Thomas Sheridan Le Fanu. Em Vampyros Lesbos, o gótico da Hammer dá lugar a paisagens ensolaradas, casas de recorte modernista, aves exóticas, escorpiões e borboletas. À volta, o mar, mais uma vez, e a música de Manfred Hübler e Siegfried Schwab, que Quentin Tarantino homenagearia na banda sonora de Jackie Brown (1997). O ar enigmático de Soledad Miranda, com os olhos escuros impenetráveis e uma figura pálida, são a força do filme, levando um produtor alemão a mostrar vontade de celebrar com ela um contrato para vários filmes. Quando o documento está a ser preparado, Jess Franco recebe a noticia de que Soledad Miranda tinha falecido, em Portugal, num acidente de automóvel. Tinha vinte e sete anos e, premonitoriamente, num dos últimos filmes em que trabalhou, Sie tötete in Ekstase (She Killed in Ecstasy, Jess Franco, 1970), morreria também num acidente de automóvel. A ligação de Franco a Portugal não se resumia a Soledad Miranda e é aqui que arranja produtores e realiza filmes, muitos deles na ilha da Madeira: Il trono di fuoco (The Bloody Judge, 1970), Drácula contra Frankenstein (1971), Christina, princesse de l'érotisme (A Virgin Among the Living Dead, 1971), La maldición de Frankenstein (Erotic Rites of Frankenstein, 1972), Quartier de femmes (1972), Les Glutonnes (1973), Al otro lado del espejo (1973), Les démons (1973), La comtesse noire (Female Vampire, 1973), Maciste contre la reine des Amazones (1974), Un capitán de quince años (1974), Die Marquise von Sade (Doriana Gray, 1976) e Linda (1980), para além do já mencionado Necronomicon, entre muitos outros. Neste campo, um destaque para a polémica criada por Die Liebesbriefe einer portugiesischen Nonne (Cartas de Amor de Uma Freira Portuguesa, 1976), rodado em monumentos e com a participação de futuras vedetas nacionais. Os adjectivos, mau e pornográfico, utilizados para o descrever fazem parte de um mito que uma reportagem recente da SIC pouco fez por esclarecer. Não é um dos melhores filmes de Franco, mas foi penoso ver os jornalistas e as ditas estrelas a questionarem a qualidade do filme e mal agradecidos, sem terem em conta o culto internacional que lhe é dirigido.

Jess Franco ficara bastante abalado com o desaparecimento de Soledad Miranda e inicia um período intenso de trabalho que se prolonga até à sua morte, parecendo querer levar à pratica a expressão "living for filming", atribuída a Orson Welles. Incomodado com a vigia da ditadura fascista, refugia-se fora de Espanha e chega a realizar cerca de dez títulos por ano, filmando três filmes ao mesmo tempo, com a mesma equipa de técnicos e actores e sem o conhecimento do produtor. Os próprios actores surpreendiam-se com a existência de cenas desligadas do resto da narrativa. Por esta altura, surge uma jovem actriz, Rosa María Almirall Martínez, que assinava os trabalhos com o nome de Lina Romay e se tornaria na nova musa. Para além de carnalidade, Lina Romay traz para o cinema de Franco uma boa dose de versatilidade, capaz de segurar o filme apenas com a sua presença - como em  La comtesse noire, que protagoniza e onde não fala -, como de brilhar em situações cómicas. É também com Romay que Franco se instala no hardcore, nem sempre por vontade própria, mas por imposição dos produtores, respondendo assim a uma abertura e curiosidade da sociedade por matérias relacionadas com o sexo. Dos filmes que assinou neste período efervescente destacam-se: La comtesse noire, Christina, princesse de l'érotisme, Mais qui donc a violé Linda? (1973), Al otro lado del espejo, La comtesse perverse (1973) e Les possédées du diable.  

Em vários dos filmes da década de 1970, conforme o mercado onde é lançado, são criadas versões diferentes: comercial, softcore ou hardcore. Os inserts hadcore, tanto podem ser filmados por Jess Franco, como por técnicos indicados pelos produtores. Daí que, hoje, ver um filme seu implica sempre um bom trabalho de pesquisa e cruzamento de informação, pois existem muitas contradições, para perceber qual a versão mais adequada. Uma conclusão parece emergir depois do visionamento de tantas obras: quando os títulos não foram filmados nessa língua, as versões em inglês são sempre as dispensáveis, pois a dobragem chega a ser risível. Outra alternativa tentadora é visionar as várias versões, pois se há algumas onde os inserts, criados pelo produtor, estrangulam por completo o ritmo, em outros casos o novo material, filmado por Franco, adiciona novas camadas e cria resultados inesperados. De resto, há cortes e acrescentos em quantidades generosas, que não implicam apenas mudanças de âmbito sexual: em La comtesse perverse manteve-se o sexo e foram inseridas cenas cómicas para atenuar o canibalismo, considerado avançado para a época; na versão espanhola de Vampyros Lesbos foi substituida parte da música e cortada a performance picante de Soledad Miranda que abre o filme; de Mais qui donc a violé Linda? foi produzida a nova versão Les Nuits Brulante de Linda com inserts hardcore filmados mais tarde por Franco, menos duas personagens e um dos eixos narrativos, e acrescentado um novo final; para Al otro lado del espejo foi criada uma versão italiana com novas cenas eróticas protagonizadas por outros actores, que anulam a atmosfera; e, entre os casos mais célebres, a sequência de zombies a sairem da terra, que o talentoso Jean Rollin filmou para uma nova versão francesa de Christina, princesse de l'érotisme. Esta é também a época em que Franco passa a usar pseudónimos, para se proteger relativamente ao conteúdo erótico. Clifford Brown, James Lee Johnson, C. Plaut, A.M. Frank, James P. Johnson, David Khune, Jack Griffin, Dave Tough, Anton Martin Frank, Dan L. Simon, Roland Marceignac, James Gardner, Adolf M. Frank, Wolfgang Frank, J.P. Johnson, Frank Hollmann, Franco Manera,  Frank Manera e  J. Franco foram alguns dos alter egos que o acompanharam até ao fim da carreira.





















Lina Romay em Die Marquise von Sade (Doriana Gray, Jess Franco, 1976)



A morte do General Franco traz a queda da censura e promove mudanças de costumes na sociedade, o que leva Jess Franco a regressar a Espanha para aí continuar a sua produção. É nesta altura que dirige uma avalanche de abordagens eróticas claramente causticas, algumas em tom de comédia, e revisitações a algumas das personagens que lhe deram fama, como Al Pereira, Eugénie e Orloff. Exceptuando grandes produções, como Operación cocaína ou Faceless, apenas conseguidas com a popularidade que ganhou com a distribuição internacional de títulos antigos em formato VHS, os filmes que dirige a partir de inícios dos anos 80 são de orçamento baixo e de equipas pequenas, em que a parte técnica chega a ser assegurada pelos actores. Anos depois, a utilização da câmara de vídeo viria completar o processo. Desta forma,  Franco sente-se livre dos produtores - Daniel e Marius Lesoeur, Allan Towers, Artur Brauner, Robert de Nesle, Erwin C. Dietrich e, mais tarde, Kevin Collins - para se dedicar aos filmes que sempre quis fazer. Como antigo colaborador de Orson Welles, aceita o convite para finalizar Don Quijote (1992), projecto que o americano deixara incompleto. Envolto numa disputa legal sobre os direitos do filme, a Franco apenas é entregue parte do material de produção, pelo que tem de recorrer a excertos de um documentário antigo que Welles fizera para a cadeia televisiva italiana RAI. Don Quijote acaba por ter uma recepção muito fria quando estreia no Festival de Cannes, em 1992. O regresso de Jess Franco a Espanha é também um dos periodos menos estudados da sua cinematografia, uma vez que muitos títulos existem apenas em língua castelhana, sem a possibilidade de aceder a dobragem ou a legendagem, o que limita o acesso dos especialistas na sua obra - muitos deles de origem anglo-saxónica. Daqui resulta um grande desconhecimento ou a elaboração de visões parciais de um período com um volume de trabalho bastante significativo. Entre os títulos mais apreciados desta fase, encontram-se Eugenie, Historia de una perversión, El sexo esta loco (1980), Gemidos de placer, Macumba Sexual (1981), Sola ante el terror (1983), Faceless e Snakewoman (2005).

Com Al Pereira vs. the Alligator Ladies (2012), Jess Franco assina o seu último filme. Estreia no Festival de Cinema de Sitges, na sequência de uma consagração institucional tardia. Em 2008, a Academia de Cine de España entrega-lhe o prestigiado Goya de Honor, justificando o prémio com a referência criativa que se tornara para as novas gerações de cineastas, dentro e fora de Espanha. Também nesse ano, a Cinemateca Francesa realiza uma grande mostra com cerca de sete dezenas de títulos. Quem assistiu, lamentou o estado de degradação das cópias, a contrastar com a qualidade superior das versões restauradas das edições de luxo em formato DVD e Blu-ray, que companhias americanas e europeias têm lançado nos últimos anos. Depois da fase de reconhecimento internacional durante o boom analógico do VHS, é pelo formato digital que se manifesta actualmente o investimento na recuperação da memória e uma nova vaga de interesse do público pelo trabalho deste criador incansável, que a Cinemateca Francesa classificou de poeta erotómano, experimentador louco e inspirado.

A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there//

Jess Franco: Um Mapa
















La comtesse noire (Female Vampire, Jess Franco, 1973), filmado na Madeira 



Quem tem medo de Jess Franco? Cineasta de culto recentemente desaparecido, dirigiu, actuou, escreveu ou compôs para cerca de duzentos títulos. Criou inúmeros alter egos para se proteger da censura. Atravessou géneros, movimentando-se com o mesmo à vontade no cinema mainstream, no softcore e no hardcore. Amava o cinema de Jean-Luc Godard, mas foi de Fritz Lang e Orson Welles, com o qual colaborou, que recebeu elogios.

A partir desta obra imensa e pouco conhecida em Portugal, os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there propõem traçar um mapa feito de palavras, sons e imagens, que permita navegar entre os mitos, as personagens, as diferentes fases da carreira, os produtores, os actores, as musas, as edições em VHS, DVD e Blu-ray, as publicações e a forte ligação ao nosso país. Consciente dos percalços, nomeadamente os filmes dispensáveis que realizou, trata-se de um mapa que pede discussão, mas que rejeita o olhar preconceituoso que recai sobre a totalidade da sua obra. Em Obssession - The Films of Jess Franco, Tim Lucas nota : As you must know, once the viewer has tasted this essence, he becomes insatiable, obsessed with seeing everything Franco has signed, and everything he has forged.

A partir de 21 de Julho, durante dezoito semanas, a cada domingo, um autor para descobrir no My Two Thousand Movies e no there's something out there. //



Link para o conteúdo completo da iniciativa Jess Franco: Um Mapa